Adelina Lopes Vieira


Adelina Amélia Lopes Vieira nasceu em Lisboa em 20 de setembro de 1850 e morreu no Rio de Janeiro em 1922(?). Escritora, contista, professora e teatróloga, era filha de Valentim José da Silveira Lopes e de Antonia Adelina. Seus pais vieram para o Brasil quando ela tinha um pouco mais de um ano. Ficou conhecida no Brasil como autora de contos para crianças. Escreveu com sua irmã Júlia Lopes de Almeida Contos infantis (1886). Formou-se professora pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Escreveu peças de teatro, foi tradutora e colaboradora de periódicos, como o jornal O Tempo, onde defendia a política de Floriano Peixoto, e a revista A Mensageira. Traduziu A terrina, comédia em um ato, de Ernesto Hervelly. Publicou o livro Margaritas, no Rio de Janeiro em 1879 e o conto Destinos, publicado em 1890. Escreveu peças teatrais como A viagem de Murilo, drama em verso, As duas doses, drama, e Expiação, drama em três atos e um prólogo. Na revista A Faceira encontramos de sua autoria o soneto A lancha negra.


A lancha negra

Para velar da luz a face refulgente
Nuvens pesadas vão correndo acumuladas,
E, na treva do oceano, as vagas compassadas
Passam, uma por uma, interminavelmente.

Mais do que a sombra, escura, avulta de repente
A lancha negra, vem... dos remos as pancadas
Ferem o mar, que chora, em gotas prateadas
As lágrimas sem fim, da sua dor pungente.

Eil-a a meus pés, a lancha, e nella, silenciosa,
Embarca a doce e branca imagem de outra idade!
E vejo-a ir... sumir-se... a lancha mysteriosa!...

Então, dentro de mim, num soluço, a saudade
Murmura, a perscrutar a sombra tenebrosa:
Nunca mais voltarás, nunca mais! Mocidade.

Em: A Faceira, ano 1, n. 4, nov. 1911.

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A.E. Zaluar


Augusto Emílio Zaluar nasceu em Lisboa em 14 de fevereiro de 1826, e morreu no Rio de Janeiro em 03 de abril de 1882. Filho de José de Oliveira Zaluar. Escritor, tradutor, poeta. Ainda em Portugal começou seus estudos em medicina, sua vocação em literatura foi mais forte, assim abandonou seus estudos em medicina. Escreveu para vários jornais em sua terra natal, entre os quais, Epocha, Jardim das Damas e Revista Popular. Em janeiro de 1850 , chegou ao Rio de Janeiro às vésperas de completar 24 anos.

Em 1855 tornou-se cidadão brasileiro ao naturalizar-se, assim foi possível trabalhar como amanuense no Ministério da Justiça. No Brasil exerceu a profissão de jornalista escrevendo e contribuindo para alguns jornais. Escreveu para o Diário do Rio de Janeiro e Correio Mercantil alguns folhetins bastante apreciados, onde assinava respectivamente com a inicial de seu sobrenome, Z, e com o pseudônimo Hegesippo.

Foi trabalhar na cidade de Santos como redator na publicação intitulada, Civilização. Voltando ao Rio de Janeiro, mais precisamente em Petrópolis, fundou com Quintino Bocayuva o periódico O Parayba onde foi redator chefe. A diversidade de temas compõe sua vida literária, traduziu peças para o teatro, escreveu livros cujo tema era as questões econômicas e administrativas do Brasil. Destacamos algumas de suas obras: publicou em 1851, Dores e flores, versos; Revelações, poesias, em 1862; Peregrinações na Província de São Paulo, impressões de viagens; Uruguaiana, poema, em 1865. Em 1866, escreveu o drama intitulado O Cofre de Tartaruga. Em 1875, escreveu o romance-científico O Dr. Benignus, considerado uma de suas melhores obras. Colaborou com o periódico O Cysne, com uma de suas poesias intitulada, É Tarde.


É tarde!

É forçoso... não posso por mais tempo
Conter a acerba dor que me lacera;
Tem limites o humano soffrimento,
Que há de ao coração dizer--espera?

Esperar! Quando sinto a cada instante
As minhas illusões desvanecer-se;
E de meu peito ao arquejante abalo
Pouco a pouco a existencia desprender-se!

Esperar! Quando vejo que a fortuna
Que sonhava tão alto em meu transporte
Se converte em promessa enganadora,
Pois onde cria a vida, encontro a morte!

Esperar! Tu não sabes o que pedes;
Não pesáste o valor dessa palavra!
É tarde! é muito tarde! Agora em chammas
O incendio fugaz devora e lavra!

E tiveste a coragem reflectida,
De fria calcular os meus tormentos,
E rir do meu soffrer! rir de ti mesma!
E zombar dos mais santos pensamentos?!

Tao moça e tao descrente! Onde aprendeste
Essa lição fatal do desengano?
A duvida que pousa junto ás campas,
Revelou-te no berço o negro arcano?

Oh! não, não acredito em teus receios:
O meu provado amor já não se ilude;
Tu pões a gloria tua em ser-me infensa
Eu em ser-te fiel minha virtude?

Tu calculas, invocas mil pretextos,
Pensas, refflectes com socego e calma;
Sujeitas á rasão teus sentimentos;
Os meus são expontaneos da minh'alma.

E's feliz! Foste tu quem o disseste:
Gosa em paz essa maxima ventura;
Não irão perturbar os teus praseres
Os queixumes da minha desventura!

Um dia, talvez digas, se a memoria
Do meu amor na mente conservares;
"Extremos como os seus nunca mais tive!
Matou-o o meu desprezo e seus pezares!"

Em: O Cysne, anno1,n.1(maio 1864)

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Affonso Celso


Affonso Celso de Assis Figueiredo Junior nasceu em Ouro Preto, MG, em 31 de março de 1860, e morreu no Rio de Janeiro, em 11 de julho de 1938. Era filho de Affonso Celso de Assis Figueiredo, visconde de Ouro Preto (1836-1912). Poeta, romancista, historiador, jornalista e professor catedrático, em 1876, aos 15 anos, publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado Prelúdios. Em 1880, formou-se em direito pela Faculdade de Direito de São Paulo. Foi fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 36, cujo patrono é Teófilo Dias. Com 20 anos, tornou-se deputado por Minas Gerais, sendo eleito por quatro vezes. Abolicionista e republicano, participou ativamente da política brasileira. Fundador do Jornal do Brasil, onde escreveu seus artigos por mais de trinta anos, colaborou também no jornal Correio da Manhã, pelo mesmo período. Escreveu em jornais e revistas, como A Semana, República e Almanaque Garnier. Em 1892, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde foi eleito presidente perpétuo em 1912, cargo que ocupou até 1938. Em 1900, publicou Por que me ufano de meu país, livro que gerou grande polêmica, por se tratar do culto de amor à pátria, e lançando a expressão "ufanismo", palavra usada até hoje. Outras obras do autor: Devaneios (1877), Telas sonantes (1879), Poemetos (1880), Poesias escolhidas (1904). Deixou publicadas obras de teatro, crítica, história, fez trabalhos jurídicos, conferências e discursos.


Arde, diante d´este pequeno altar erguido ás lettras, o lume da crença no alampadário da liberdade. Si a vestal que foi confiado é tíbia inspiração, humilde e sem belleza; si treme-lhe timidamente escassa a luz balbuciante: __ enfeitai, oh moços gene- rosos, esse modesto sacrário com as pompas do vosso enthusiasmo; illumi- nai-o com a vossa fé, tornando-o digno engaste para o diamente do vosso espírito. […]

Apresentação de Direito e letras, ano 1, n. 1, ago. 1878.

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Agripino Grieco


Agripino Grieco nasceu em Paraíba do Sul, RJ, em 15 de outubro de 1888, e morreu no Rio de Janeiro em 1973. Desde tenra idade já frequentava a biblioteca de sua cidade, onde começou a ter contato com escritores da época. Em 1906, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como funcionário público na Estrada de Ferro Central do Brasil. Estimulado pelo pai, dedicou-se às letras e, aos 19 anos, iniciou sua vida literária estreando com o livro de poesias Ânforas em 1910, obtendo Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras. Em 1913, escreveu o livro de contos intitulado Estátuas mutiladas. Escreveu, Evolução da poesia brasileira e Evolução da prosa brasileira. Foi professor de História da Literatura na antiga Universidade do Brasil. Escreveu sátiras para as revistas ABC e Hoje, que, mais tarde, foram reunidas no livro Fetiches e fantoches (1921). Produziu estudos literários que foram agrupados no livro Caçadores de símbolos (1923), o que o colocou em contato com Tristão de Ataíde, então crítico literário de O Jornal. Agripino chegou a substituí-lo, por algum tempo, como crítico literário nesse mesmo jornal. Seu gosto pela leitura fez com que formasse uma biblioteca com mais de cinquenta mil volumes. Fundou em 1933, com Gastão Cruls, o periódico Boletim de Ariel, que durou sete anos. Trabalhou com Paulo Barreto, Olavo Bilac, Silva Jardim, entre outros, na Gazeta de Notícias, jornal de grande prestígio que circulou de 1875 até 1942. Entre 1940 e 1945, realizou conferências pelo Brasil, divulgando seus conhecimentos literários.


Amor

Ante o esplendor vivaz de tua excelsa gloria
Toda a terra palpita em commoções supremas,
E ebria de tua luz, n'um canto de Victoria,
A alma dos moços vibra, entre hosannas e poemas.

Por ti é toda aroma e pradaria florea,
As arvores por ti esmaltam-se de gemmas,
E para apotheosar-te a noite merencorea
Semeia pelo azul mil fulgidos diademas.

No viço e no frescar das magnólias, no vôo
Das aves, no rumor festivo das colméias,
Nos milagres do sol, Amor, eu te abençôo!

Sê bemdito no olhar da creatura querida,
Sê bemdito no ardor que pões em nossas veias, Fonte de todo o bem, gérmen de toda vida.

Em: A Avenida, ano 1, n. 1, jul. 1912.

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Alphonsus de Guimaraens


Afonso Henriques da Costa Guimaraens nasceu em Ouro Preto, MG, em 24 de julho de 1870, e morreu em Mariana, MG, em 15 de julho de 1921, filho de Albino da Costa Guimarães e de Francisca de Paula Guimarães Alvim, sobrinha-neta de Bernardo Guimarães, autor de A escrava Isaura. Poeta, foi juiz e promotor de justiça, na cidade de Conceição do Serro, MG. Seus primeiros estudos foram no Ginásio Mineiro e na Escola de Minas em Ouro Preto. Iniciou seus estudos de direito em São Paulo, terminando-os em 1894, em Ouro Preto, pela Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais. Em São Paulo, colaborou com os jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo e A Gazeta. Em 1899, publicou 3 livros de poemas intitulados Setenário das dores de Nossa Senhora, Câmara Ardente e Dona mística, cujos versos atestam o misticismo do autor. Em 1902 publicou Kiriale, na cidade do Porto, Portugal, sob o pseudônimo Alphonsus de Vimaraes. Poeta simbolista, cultuava o amor, o misticismo, a morte e a religiosidade. A perda de sua noiva Constança, filha de Bernardo Guimarães, influenciou profundamente sua obra. Casou-se em 1897 com Zenaide e tiveram 14 filhos, sendo 2 deles escritores, João Alphonsus e Alphonsus de Guimaraens Filho. Em 1903, foi diretor, cronista e redator do jornal O Conceição do Serro. Em 1906, foi nomeado juiz da comarca de Mariana. Nesta cidade foi colaborador do jornal Diário de Minas e O Germinal. Seu livro Mendigos foi publicado em 1921.


Pastoral aos crentes do amor e aos illudidos.

Eu não queria ser o sol e nem a lua,
(O sol é muito alegre, a lua é muito triste);
E nem queria ser a formosura tua,
Nem aquelle sorriso ideal que me sorriste;

Eu não quizera ser o occaso que soluça
Entre ameias de sangue e barbacans de luz;
E nem quizera ser o luar que se debruça,
Em noites brancas, sobre os braços de uma cruz;

Eu não queria ser o lyrio que perfuma
Escarpas, alcantis, valles, prados, algares,
E que as pétalas fecha, e as perde, uma por uma,
Como eu perdi os sonhos meus crepusculares;

Eu não quizera ser a estrella que me guia
Desde que a noite tomba até o alvorecer;
Nem som, nem flor, nem luz, nem doce melodia,
E tu propria, senhora, eu não quizera ser:

Eu não queria ser quem sou! amante e poeta,
Cujo antigo arrabil em notas de ouro chora
Cantigas em louvor da Assucena dilecta
Que brotam dentro em mim como em meio da aurora:

Eu quizera ser sombra (a minha), essa velhinha
__ Até parece que a coitada já morreu__
Que tendo a familiar figura que é tão minha,
E os meus passos senis, não padece como eu.

Em: Fortaleza, ano 1, n. 8, maio 1907.

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Alves de Souza


Antônio Augusto Alves de Souza nasceu em Vigia, PA, em 12 de dezembro de 1882, e morreu no Rio de Janeiro, em 4 de dezembro de 1943. Poeta, contista, jornalista e político, colaborou com a revista Cenáculo, escrevendo contos e poesias. Sua obra é composta por Equatoriais, escrita em 1904; Crepusculários, escrita no mesmo ano, e A Epopeia do Oriente, em 1905.





Ao Bosque

Deixa o aconchego tépido do ninho
e vem, cantando, ver a luz do dia.
paira em todas as almas um carinho,
uma profunda e límpida alegria.

Quero que sintas o Prazer vibrando
a cavatina augusta da ternura
para seres feliz e livre, quando
ferir-te o duro espinho da amargura.

Chega-te aqui. Vem despontando a aurora,
vem resurgindo a luz da madrugada.
Trinúla e canta, vívida e sonora,
a orchestra matinal da passarela.

Aqui, no seio d'este bosque umbroso,
livres do fel d'esta infernal Matéria,
esqueçamos o pranto amarguroso,
que rega a senda amarga da Miséria.
[...]

Trecho de poema em: Cenáculo, ano 1, fasc. 3, ago. 1900.

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Antônio Silva


Antônio da Costa e Silva nasceu em Belém do Pará, no dia 1 de junho de 1871. Poeta e comerciante, foi membro do Grêmio Literário José de Alencar. Em 1900, publicou uma coleção de versos líricos, intitulada Fogos fátuos. Como colaborador da revista Cenáculo, escreveu o poema, "De longe".






De longe

Para que não supponhas que te esqueço,
na solidão do exílio dolorido,
d'aqui te envio o coração fundido
n'este soneto pallido e sem preço.

Não mais eu julgarei que te mereço.
Tornar a ver-te o olhar enternecido!
sentir o som da tua voz no ouvido,
são venturas demais... bem reconheço!

Dá-me ao menos que possa, neste dia,
transpondo o Mar, - qual pomba fugidia
que, voando, a sorrir, demanda o espaço, -

de minha parte, este soneto pobre
vá 'té junto de ti, formosa e nobre,
de mil flores cobrir o teu regaço!

Em: Cenáculo, ano 1, fasc. 3, ago. 1900.

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Antônio Tolentino de Almeida


Nasceu em Rosário Oeste, MT, a 24 de janeiro de 1876 e morreu em Santo Antônio de Leverger, MT, a 24 de janeiro de 1937. Promotor de justiça e poeta, colaborou em diversos jornais de sua cidade. Respeitado como poeta, publicou A india rosa e Ilusões doiradas, este em 1910. Foi patrono da Academia Mato-Grossense de Letras, ocupando a cadeira de número 39. Em Cidade verde, revista publicada em Cuiabá, aparece, de sua autoria, o poema "Versos de outrora".






Versos de outrora

De minhalma fugiram uma a uma
As esperenças meigas, erradias;
Desfez-se a minha crença como a espuma
Desfaz-se em breve pelas ventanias.

E como este meu damno se avoluma!
Quão pesados tornaram-se meus dias!
Nem um archote, ao menos, nesta bruma,
Para aclarar as minhas agonias!

Sou batel que do porto perde o rumo;
Das maiores miserias d'este mundo
Tornei-me a essencia, o tetrico resumo!

Nada mais vejo que do amor me falle;
Porque teimar neste arcabouço immundo,
Chamando vida e que viver não vale?

Em: Cidade verde, ano 1, n. 2, set. 1935.

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Ascenso Ferreira


Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu em Palmares, PE ,em 09 de maio de 1895 e morreu em Recife, em 05 de maio de 1965. Poeta. Filho de Antônio Carneiro Torres, comerciante, e de Maria Luísa Gonçalves Ferreira, professora.
Ao ficar órfão aos 6 anos, teve sua educação confiada à sua mãe que o educou e ensinou-lhe a ler e a escrever. Sendo as condiçoes econômicas da família difíceis, começou a trabalhar aos 13 anos de idade como balconista na loja A Fronteira, de seu padrinho Joaquim Ribeiro.
Foi através do contato com o povo, que tomou conhecimento de figuras do folclore nordestino como: mula-sem-cabeça e lobisomem. Adolescente, começou a fazer seus primeiros poemas cujo tema girava em torno de elementos típicos regionais, como o carro de boi, os folguedos, as lendas e as figuras lendários do nordeste brasileiro.
Em 1916, fundou com outros poetas a sociedade "Hora Literária", ao mesmo tempo passou a ser perseguido por suas idéias em defender o abolicionismo.
Indo morar em Recife, conseguiu emprego como escriturário no Tesouro do Estado de Pernambuco estando nessa época com 24 anos. Casou-se em 1921 com Maria Stela de Barros Griz, filha do também poeta Fernando Griz. Em 1922, seus poemas foram editados nos jornais, A Província e Diário de Pernambuco. Fez amizade com Câmara Cascudo, Joaquim Cardozo, Souza Barros e Gouveia de Barros, além de Mário de Andrade, Anita Malfati e outros intelectuais da época.
Seu primeiro livro foi lançado em 1927 intitulado Catimbó, o segundo livro Cana caiana lançado em 1939, o terceiro livro Xenhenhém, só foi editado em 1951 incorporado à edição de Poemas, que apresentava disco de poesias recitadas pelo próprio Ascenso, nesta edição constava o poema O Trem de Alagoas musicado por Vila Lobos, e, em 1963 Catimbó e outros poemas, estes com temas regionais de sua terra. Postumamente foram publicados Poemas em 1981 e Eu voltarei ao sol da primavera em 1985.
Ao assinar contrato com a José Olympio Editora, em 1956, teve seus poemas reeditados, e mais tarde lançado um álbum duplo de discos com suas obras completas "64 poemas escolhidos e 3 historietas populares", com a apresentação de Câmara Cascudo.
Na política participou ativamente em comícios na campanha de Juscelino Kubitschek para presidência da república, em 1955. Foi nomeado em 1966, por JK, para assumir a direção do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em Recife. Porém, um grupo de intelectuais de Recife foi contra à nomeação e esta foi cancelada. Ascenso Ferreira faleceu em Recife às vésperas de completar 70 anos. Foi homenageado pela Prefeitura de Recife, onde seu busto foi colocado na Rua Apolo, local onde o poeta gostava de caminhar.
É de sua autoria o poema Misticisno n.2, transcrito da revista Bazar.



Misticismo n.2

O espirito-máu entrou no meu couro!
Entrou no meu couro algum mangangá
E eu quero mulheres...
Mulheres...
Mulheres...

Curibocas!
Mamelucas!
Cafussús...

Caboclas viçosas de bocas pitangas!
Mulatas dengosas cajú e cajá!

Mulheres brancas como assucar de primeira!
Mulheres macias como a penugem do ingá!
Mas sempre mulheres...
Mulheres...
Mulheres...

(Ou lêlê)
Todas formosas,
todas belas,
todas novas...

(Ou lala)

Deitadas molengas em folhas macias!
Na sombra rajada das bananeiras lentas
Iluminadas por um sol-das-almas!

Só para eu,
devagarinho,
fazer com elas!

"Pinicainho
da barra do 25
mingorra mingorra
tire esta mão
que já está forra..."

Em: Bazar, ano 1, n.5, nov.1931.

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Augusto de Lima


Antonio Augusto de Lima nasceu em Congonhas de Sabará, hoje, Nova Lima, MG, em 05 de abril de 1859 e morreu no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. Filho de José Severiano de Lima e de Maria Rita Deniz Barbosa. Jornalista, poeta, jurista, professor universitário e político.
Iniciou seus estudos no Seminário de Mariana, sendo seu professor o padre Silvério Gomes Pimenta, mais tarde arcebispo de Mariana. Estudou no Seminário do Caraça, Minas Gerais, mas desistiu de ser padre. Foi para São Paulo onde ingressou na Faculdade de Direito em 1878, bacharelando-se em 1882. Aqui conheceu e fez amizade com Raimundo Correia, Afonso Celso Júnior, Silva Jardim, Valentim Magalhães, Teófilo Dias, Pinheiro Machado e Assis Brasil.
Fundou com Raimundo Correia, Alexandre Coelho e Randolfo Fabrino a Revista de Ciências e Letras, além de colaborar para o jornal O Imparcial usando às vezes os pseudônimos: I, Lilvio e Lauro. Em 1903 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e em 1928 eleito presidente.
Na política assumiu provisoriamente o governo de Minas Gerais em 1891. Durante o seu mandato foi aprovado o projeto de mudança da capital em Ouro Preto, para a região conhecida como Curral Del-Rey, hoje Belo Horizonte. Ao deixar o governo do estado, fundou a Faculdade de Direito de Minas Gerais sendo escolhido para ser professor na cadeira de filosofia do direito. Restaurou a Escola de Farmácia de Ouro Preto.
Deixou publicados Contemporâneos (1887), Símbolos (1892), Tiradentes (ópera musicada por Manuel Macedo (1895), Laudas inéditas (1909), Noites de sábado (crônica, 1920), São Francisco de Assis (poema sacro, 1930). No periódico Tiradentes, n.14 de 1881, encontramos o poema de Augusto de Lima intitulado Nos Campos. Segundo os redatores da revista “Este poeta tornou-se admiravel em poucos mezes”. É o que se le, logo abaixo do poema.




Nos Campos

Respiremos um pouco o ar sadio
Dos campos em que a idéa livre vôa,
Com o passaro leve e fugidio
Nos espaços azues errando atôa...

Ó Natureza, ó mãe fecunda e boa!
De rosto ora sereno, ora sombrio,
Tua entranha é o sacrario ingente e pio,
Em que minha alma canticos entòa

Subamos à colina...ó quadro immenso!
Ao longe das montanhas como o incenso
Sóbe o fumo á luz rubra do arrebol …

Oh! Eu sinto no espírito a Verdade,
Sorvendo o azul sem fim da immensidade,
E te bebendo o sangue de ouro, ó Sol!

Em: Tiradentes : orgam republicano, anno 1,n.14(jul.1881)

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Áurea Pires


Áurea Pires da Gama nasceu em Angra dos Reis, RJ, em 2 de fevereiro de 1876 e morreu no Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 1949. Poetisa e professora, seus primeiros estudos aconteceram em Minas Gerais, terminando no Rio de Janeiro. Foi casada com o escritor Antônio Chichorro da Gama. Escreveu Flocos de neve em 1898, prefaciado por Inês Sabino. Publicou ainda Indiana (1902), Pétalas (1908) e Entre o mar e a floresta (1922), todos livros de versos. Colaborou com a revista A Mensageira publicando alguns dos seus versos. Foi biografada por Elmo Elton, com o livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angrense, publicado em 1974.




Contraste

Talvez nest'hora em que a chorar suspiro
Lembrando-me de ti, saudosa e afflicta,
Bem junto estejas da mulher bonita
Que te escravisa o coração que aspiro.

E emquanto eu soffro aqui no meu retiro
O ciúme atroz que no meu peito excita
Cada vez mais essa paixão maldita,
E de raiva e de dor quase deliro;

Em paragem risonha, enflorecida,
Talvez tu`alma esteja n`um transporte
Toda inteira em su`alma transfundida!

Bem diversa da tua é minha sorte:
No seio de outra encontras tu a vida,
ância encontro a morte!

Em: A Mensageira, ano 1, n. 1, out. 1897.

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Iniquidade

Se havias de assistir á tenebrosa quéda
Do castello ideal que edificaste um dia,
Das chimeras azues que do altar da poesia
Desabaram tambem nessa voragem treda...

Se os cantares da sorte esperançosa e leda,
Depois de deslumbrar-te a infancia fugidia,
Transformaram-se em ais de pungente agonia.
Que te sulca o semblante e o sorriso te veda;

Se tudo te mentiu! Se a crença mais perfeita
Na aza plumbea da dor, em cinza hoje desfeita,
Deserta de tua alma... e em lagrimas te expandes...

Se havias de tragar todos os amargores,
Porque sonhaste em vão todos os esplendores?!
Porque ousaste, infeliz, aspirações tão grandes?!

Em: A Faceira, ano 2, n. 7, fev. 1912.

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Auta de Sousa


Auta de Sousa nasceu em Macaíba, RN, em 12 de setembro de 1876, e morreu de tuberculose em Natal, RN, em 7 de fevereiro de 1901, filha de Elói Castriciano de Sousa e Henriqueta Leopoldina. Estudou no Colégio de São Vicente de Paula, em Recife, dirigido por religiosas francesas, onde aprendeu a falar e a escrever o francês. Usava como pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves. Foi colaboradora da revista Oásis em 1894; em 1896, colaborava com jornal do governo intitulado A República. Escreveu para os periódicos Oito de setembro e Revista do Rio Grande do Norte, ambos de Natal. Escreveu o seu único livro de versos, inicialmente intitulado Dálias e posteriormente O horto, submetido a apreciação de Olavo Bilac, que escreveu o prefácio para a sua primeira edição. Seus poemas foram publicados na Gazetinha, de Recife, em O Paiz, do Rio de Janeiro, e na revista A Mensageira.


Natal

É meia-noite... O sino alviçareiro
Lá da Igrejinha branca pendurado,
Como n`um sonho mystico e fagueiro,
Vem relembrar o tempo passado.

Ó velho sino, ó bronze abençoado,
Na alegria e na magua companheiro,
Tu me recordas o sorrir primeiro
Do menino Jesús Immaculado.

E emquanto escuto a tua voz dolente
Meu ser, que geme dolorosamente
Da desventura aos gélidos açoites.

Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!
Sino, que lembras uma noite santa,
Noite bemdicta em meio às outras noites!

Em: A Mensageira, ano 1, n. 18, jun. 1898.

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Baptista Cepelos


Manuel Batista Cepelos nasceu em Cotia, SP, em 10 de dezembro de 1872 e morreu no Rio de Janeiro, em 8 de maio de 1915, filho de João Batista Cepelos e de Maria Dinis Cepelos. Poeta, teatrólogo e romancista, de família humilde, foi carroceiro, garçom e soldado. Foi para São Paulo em 1893, onde assentou praça na Força Pública, Corpo Municipal Permanente. Em 1902, bacharelou-se em ciências jurídicas e sociais. Começou como poeta escrevendo o poema A derrubada, em 1895. Em 1902, escreveu O cisne encantado. Em 1906 escreveu Bandeirantes, obra prefaciada por Olavo Bilac, sendo reconhecido nesta obra como autor parnasiano. Os corvos, coletânea escrita em 1907 e, em 1908, escreveu Vaidades. Em 1910, escreveu Vil metal, romance de cunho naturalista. A peça de sua autoria, Maria Madalena, teve sua estreia no ano de inauguração do Teatro Trianon, em 1915, pela Companhia de Cristiano de Souza. Tentou por três vezes, sem êxito, ingressar na Academia Brasileira de Letras. Seus estudos foram financiados pelo senador Peixoto Gomide e a convivência com a família deste fez com que se apaixonasse pela filha do senador, que, contrário ao relacionamento dos dois, inexplicavelmente, matou a própria filha e a seguir suicidou-se. Deprimido depois desse trágico acontecimento, mudou-se para o Rio de Janeiro. Sua vida foi marcada por tragédias. Foi encontrado morto, sem saber-se ao certo se foi acidente ou suicídio. Na revista Evolução litterária, encontramos este soneto de sua autoria.


Ecce homo

Trazendo à Natureza uma pujança brava
A doirada razão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triumphava,
Enquanto o sol, por toda a esphera, ria... ria...

Ria de flor em flor; no insecto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cara,
Ria; por toda a parte, em summa, ria... ria...

E o Rei da Creação, o Homem, passado e lento
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...

E, alto, na solidão, que lhe augmentava o porte,
Em meio às expansões joviaes da Natureza,
Elle tinha na fronte a pallidez da morte...

Em: A Evolução litteraria, ano 1, n. 1, abr. [1911].

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Bastos Tigre


Manuel Bastos Tigre, filho de Delfino da Silva Tigre e Maria Leontina Bastos Tigre, nasceu em Recife, PE, em 12 de março de 1882, e faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de agosto de 1957. Jornalista, poeta, humorista, compositor, bibliotecário e publicitário. Quando jovem, seu talento literário já era conhecido, compondo odes cívicas e sonetos humorísticos, nos quais mestres e colegas eram satirizados. Em 1906, no Rio de Janeiro, formou-se engenheiro civil, pela Escola Nacional de Engenharia. Começou a trabalhar como jornalista em 1902, colaborando na revista humorística Tagarela. Colaborou também nos principais órgãos da imprensa carioca como: A Noite, Gazeta de Notícias, A Rua, Careta, O Malho. Em 1906, escreveu a peça Maxixe, em parceria com Batista Coelho. No carnaval deste mesmo ano fez sucesso com a música "Vem cá mulata" em parceria com Arquimedes de Oliveira. No jornal Correio da Manhã, sob o pseudônimo de Cyrano e Cia, escreveu diariamente na seção "Pingos e Respingos". Durante 53 anos, escreveu neste jornal, fatos pitorescos sobre o dia a dia do Rio e acontecimentos políticos, sempre com humor sadio. Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais-SBAT, em 1917. Como publicitário fez propaganda para o Rhum Creosotado, cujos versos apareciam nos bondes da cidade. Existem controvérsias em relação a autoria destes versos, alguns atribuem a Olavo Bilac, porém o mais aceitável é que Bastos Tigre tenha sido realmente o seu autor:


Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado
No entanto, acredite.
Quase morreu de bronquite:
Salvou-o o Rhum Creosotado.


Em 1934, em parceria com Ary Barroso (1903-1968), escreveu "Chopp em garrafa", gravado por Orlando Silva (1915-1968), cuja carreira de cantor estava iniciando. Criou também o slogan da Bayer, que ficou conhecido no Brasil: "Se é Bayer é bom". Exerceu a profissão de bibliotecário durante 40 anos. Trabalhou na Biblioteca Nacional, Museu Nacional, na Biblioteca da Associação Brasileira de Imprensa e Biblioteca Central da Universidade do Brasil. Em homenagem ao seu nascimento, o dia 12 de março foi escolhido como o dia do Bibliotecário. É autor de uma extensa obra literária.


Definição

Amor é mal, e mal que não tem cura,
Mas, sendo mal, soffrel-o nos faz bem.
Chora o amante, se o amor lhe dá ventura.
E ri da dôr, se delle a dôr lhe vem.

O amor é vida e lava á sepultura;
É doce filtro, o amor, e fél contem.
É luz, mas entretanto, em noite escura
Vive, ás cegas, o alguem que ama outro alguem.

O amor é cego, e vê todo o invisivel;
Sendo immutavel, quasi sempre é vario,
É Deus, e faz de um santo um peccador!

Fraco e indefeso, é força irresistivel;
Sendo, pois, a si próprio tão contrario,
Quem è que póde definir o amor?

Em: Senhorita X!... :revista mensal, social e illustrada, anno 1, n.3, dez.1932.

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Brasílio Machado


Brasílio Augusto Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, em 4 de setembro de 1848 e morreu na mesma cidade, em 5 de março de 1919, filho do brigadeiro Machado de Oliveira, militar e político do primeiro e segundo Impérios. Escritor e político, Brasílio Machado fez seus primeiros estudos em um seminário, em São Paulo. Formou-se em 1872 pela Faculdade de Direito de São Paulo. Foi nomeado promotor público em Piracicaba. Foi presidente da província do Paraná no período de 5 de junho de 1884 a 12 de agosto de 1885. Fundou a Academia Paulista de Letras sendo seu primeiro presidente. Sua obra é composta por: Madressilvas, Piracicaba, Discursos e José de Anchieta.



Velho thema

Tudo assim vae: a luz p'ra o adito sombrio,
o verme para o fructo, a flôr para o paul;
as azas sobre a chamma, o ninho pelo rio;
o espírito na sombra, as nuvens pelo azul;

a fonte para a pedra, a lagrima nos cílios,
nos lábios o soluço, o coração na dor;
a nênia compassando o canto dos idylios,
neblina sobre a luz, ciúme sobre o amor;

a neve em campo azul, os lyrios e a saudade,
o tédio, o sofrimento em plena mocidade,
dos espinhos no ramo, em bando, os colibris...

No entanto quando vem da morte a imagem nua
Ave tonta, noss'alma em lagrimas recúa,
Se debatendo ao pé do tumulo... feliz!

Em: Almanach litterario paulista, ano 1, p. 198, 1876.

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Bruno Seabra


Bruno Henrique de Almeida Seabra nasceu em Tatuoca, PA, em 6 de outubro de 1837, e morreu em Salvador, BA, em 8 de abril de 1876, filho de Caetano Henrique de Almeida Seabra e de Maria Emília Seabra. Poeta lírico, romancista e folhetinista, cultivava o humorismo em seus versos e prosa. Em 1859, o romance Dr. Pancrácio foi publicado no jornal Marmota Fluminense, dirigido por Paula Brito. Sob o pseudônimo de Aristóteles de Sousa, publicou em 1868, Memórias de um pobre diabo. O poema "Morrer... Viver..." encontra-se disponível no site da Biblioteca Nacional Digital, e o original encontra-se na Seção de Manuscritos. Além destas obras escreveu também As cinzas de um livro (1859), Flores e frutas (1862), O alforje da boa razão (1870), e Paulo (1861).



O Branco e o Tymbira

(Indigena Brasileiro)

O branco disse ao tymbira:
- Não me inspiram, sertanejo,
- Estes bosques, estas mattas;
- Nem eu vejo

De que te ufanes aqui:
Vem comigo – minhas terras
Tem mais lindas variedades,
Vida, amor, ouro, prazeres,
Nas cidades

Tudo, enfim, terás – alli.
-O tymbyra disse ao branco:
- Cariúa, deixa a cidade,
- Vem viver co'o sertanejo,
- Aqui tens a liberdade.

Em: O Espelho, n. 5, out. 1859.

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Carmem Dolores


Emília Moncorvo Bandeira de Melo nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de março de 1852, e morreu em 13 de agosto de 1911. Jornalista, romancista, contista e dramaturga, dedicou-se à poesia e à crítica. Colaborou em alguns jornais e revistas, entre as quais A Vida elegante. Usava o pseudônimo úlio de Castro para escrever contos em O Paiz. Como Leonel Sampaio escrevia artigos de crítica literária. No jornal Étoile de Sud, assinava como Célia Márcia, mas foi como Carmem Dolores que se destacou e que durante cinco anos, de 1905 a 1910, assinou suas crônicas na coluna dominical A Semana, na primeira página de O Paiz, jornal de maior tiragem da América do Sul, na época. Publicou, em 1897, o livro de contos Gradações. No livro Ao esvoaçar da ideia reuniu crônicas, em 1910. Publicou Lendas brasileiras: uma coleção de 27 contos para crianças. Recebeu homenagem póstuma em 1934, com a publicação de Almas complexas.




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Casimiro de Abreu


Casimiro José Marques de Abreu nasceu na cidade fluminense de Barra de São João no dia 4 de janeiro de 1839 e morreu em Nova Friburgo, RJ, em 18 de outubro de 1860, de tuberculose. Era filho do fazendeiro e comerciante português Joaquim José Marques de Abreu e de Luísa Joaquina das Neves. Estudou o primário dos onze aos treze anos, no Instituto Freeze, em Nova Friburgo. Aos treze anos foi trabalhar no comércio, por vontade de seu pai, atividade que o desagradava. Entre 1853 e 1857 viveu em Portugal, onde entrou em contato com o meio intelectual e onde escreveu a maior parte de suas poesias. Sua primeira obra, Ave Maria, foi feita em Portugal. Grande parte de sua poesia exaltava as belezas do Brasil e a saudade de sua família e de seu país. Ainda em Lisboa compôs o drama Camões e o Jaú, representado no Teatro D. Fernando em janeiro de 1856. Colaborava com a imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e Latino Coelho. Além de escrever versos, publicou também no jornal O Progresso o folhetim Carolina. Foi expressiva sua colaboração com a revista portuguesa A Ilustração Luso-Brasileira (1856, 1858-1859), onde foram publicados os três primeiros capítulos do romance Camila (obra inacabada) e mais 11 poemas. Em 1857 voltou para o Brasil indo morar no Rio de Janeiro. Boêmio, frequentava bailes e festas carnavalescas. Participava de rodas literárias com Machado de Assis e o jornalista Manuel Antônio de Almeida, que trabalhavam no jornal Correio Mercantil, com o qual Casimiro de Abreu colaborava. Contribuiu com seus escritos para a Revista Popular e A Marmota.


Uma poesia de Casimiro de Abreu

(no álbum de J. E. de C. Monte-Negro)

Tudo se muda c'0s annos;
A dor - em doce saudade,
Na velhice - a mocidade,
A crença - nos desenganos!
- Tudo se gasta e se afeia,
Como um nome sobre a areia
Quando cresce e corre a vaga!

Feliz quem guarda as memórias,
As lembranças mais queridas,
No coração esculpidas,
Gravadas fundas em si!
Essas duram; mas que vale
Um nome desconhecido
Se há de ser logo esquecido
O nome que eu deixo aqui?!

Em: Almanach litterario paulista, ano 1, 1876.



A um poeta

O viajor perdido ao declinar do dia
Dirige ao céo sereno o seu olhar afflicto.
Mas a coragem volta e novas forças cria
Se voz amiga ao longe responder-lhe ao grito.

Nós que somos irmãos na luta e no cansaço
Nós que ao mesmo calvario a mesma cruz levamos
Depois do aperto amigo e do fraterno abraço
Com novo ardor e vida nos dizemos – vamos!

Mova-se o passo affouto no abrasar da arêa,
A vista esperançosa alcance a fonte amada,
E o braço juvenil na escuridão tactea
Por entre as silvas bravas o signal da estrada.

Caminhar! Caminhar! A terra prometida
Por traz dos alcantis talvez nos appareça,
Caminhar, caminhar! sem maldizer da vida,
O nosso patrimonio exista na cabeça.

Em: O Espelho, n. 8, out. 1859.

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Delminda Silveira


Professora e escritora de destaque na história da literatura de Santa Catarina nasceu em Desterro, hoje Florianópolis em 16 de outubro de 1854 e morreu em 12 de março de 1932. Professora de português e francês no Colégio Coração de Jesus, escola tradicional católica.

Escreveu crônicas e poesias. Colaborou assiduamente na revista A Mensageira onde publicou vários de seus poemas. Por ser muito religiosa seus poemas deixam transparecer toda sua religiosidade.

Publicou: Lises e martírios, seu primeiro livro, em 1908, onde reúne poemas, crônicas e pequenos contos, com enfoque para os sentimentos de amor, saudade e dores íntimas. Os contos falam sobre amor e morte. O segundo livro é Cancioneiro de 1914 composto de hinos e poesias comemorativas das principais datas nacionais, fábulas, diálogos e poesias diversas para recitar, dedicadas aos mais notáveis catarinenses existentes. O terceiro livro Indeléveis versos de cunho religioso circula desde 1989 como edição póstuma patrocinado pela UFSC. Escreveu também Elegia de 1891, Passos dolorosos de 1931, além de Crenças e fantasias e, Na convalescença.

Aos 77 anos foi convidada a entrar na Academia Catarinense de Letras.


O primeiro sorriso

No alvo berço mimoso
feito de vimes trançados,
sobre os folhos rendilhados
do travesseiro sedoso,

O pequenito dormia
qual entre as plumas do ninho
dorme o tenro passarinho
ao findar de um bello dia.

Ao lado a mãe cuidadosa
o brando somno espreitando,
como a rola carinhosa
ao pé do ninho pousando,

fitava o meigo semblante
do anjo seu adorado
qual fita o lírio no prado a linda estrela brilhante.

Em: A Mensageira, ano 2,n.26, mar. 1899

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Dom Pedro II


Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança, ou Dom Pedro II do Brasil, nasceu no Palácio de São Cristóvão (Quinta da Boa Vista), Rio de Janeiro, a 2 de dezembro de 1825 e morreu em Paris, aos 66 anos, em 05 de dezembro de 1891, filho de D. Pedro I (1798-1834) e D. Leopoldina (1797-1826). D. Pedro II começou a estudar com o auxílio de sua camareira-mor, D. Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho, mais tarde D. Mariana viria a se tornar condessa de Belmonte. Estudou ainda com diversos mestres ilustres de seu tempo. Pedro II instruiu-se em português e literatura, francês, inglês, alemão, geografia, ciências naturais, música, dança, pintura, esgrima e equitação. Seu preceptor, Cândido José de Araújo Viana, instruiu-o em português e literatura. Foi aclamado segundo imperador do Brasil, aos seis anos de idade. Em 23 de julho de 1840, com apenas 15 anos foi declarado maior, e, no ano seguinte, em 18 de julho de 1941 foi coroado segundo imperador do Brasil. Seu reinado durou até a proclamação da República em 15 de novembro de 1889. Casou-se em 1842, com a princesa Teresa Cristina Maria, filha de Francisco I, rei das Duas Sicílias, e de Maria Isabel de Bourbon. Tiveram quatro filhos: Afonso, Isabel, Leopoldina e Pedro. D. Pedro II passou à história como um intelectual, apreciador das ciências, das artes, da liberdade de informação e como homem tolerante, aberto ao diálogo e às transformações da vida social. Em Aristolino há um soneto de sua autoria, intitulado "Terra do Brasil". Hoje, seus restos mortais repousam na Catedral de Petrópolis, RJ.


Terra do Brasil

Espavorida agita-se a creança,
De nocturnos phantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio
Fecha os doridos olhos e descança.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de la me veio
Um pugillo de terra: e nesta creio
Brando será meu somno e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo
Tristes sombras varrendo da memoria,
Ó doce pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de gloria,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A Justiça de Deus na voz da história!

Em: Aristolino, ano 2, n. 2, jan. 1925

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O Adeus

(Soneto escripto no mar, depois de desthronado)

Mensageiro do amor e da saudade,
Toma o teu vôo pela azul planura:
Vae dizer ao Brasil em que tristura
Tu nos deixaste aqui, na soledade.

Vogam commigo os meus na immensidade,
Buscando em terra extranha sorte escura,
E eu mais longe inda irei; que, nesta agrura,
Sei que caminho vou da Eternidade.

Mas ah! Que vejo? Apenas te remontas,
Entre dous pegos voejandoás tontas,
Rapido tombas, em revoltas aguas...

Bemvindo sejas, ó celeste aviso,
Que assim me revelaste, de improviso,
A Morte como termo a tantas maguas!...

Em: Senhorita X!... : revista mensal, social e illustrada, ano 1, n. 2, nov. 1932.

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Fagundes Varela


Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu Fazenda Santa Rita, município de Rio Claro, RJ, em 17 de agosto de 1841 e morreu em Niterói, RJ, em 18 de fevereiro de 1875. Filho de Emiliano Fagundes Varela e de Emília de Andrade, viveu na fazenda Santa Rita e na Vila de São João Marcos, onde seu pai era juiz. Morou algum tempo em Catalão, GO, onde conheceu o romancista e poeta Bernardo Guimarães, juiz municipal desta cidade. Publicou seu primeiro artigo na Revista Dramática, em 1860, onde colocava-se desfavorável ao teatro clássico e exaltava autores românticos. Em 1861, publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado Noturnas. Nesta mesma época, publicou em folhetim, no Correio Paulistano, a novela As ruínas da glória. Em 1862, matriculou-se na Faculdade de Direito, em São Paulo, porém não concluiu o curso. Casou-se aos 21 anos com a atriz circense Alice Guilhermina Luande, casamento que não foi aceito pelos familiares. Passou por problemas financeiros e, para agravar sua situação, perdeu seu primeiro filho, aos 3 meses de idade. Inspirado por este acontecimento compõe um dos mais belos poemas intitulado Cântico do calvário. Em 1866, morreu sua esposa. Em 1867, retornou a São Paulo, onde mais uma vez matriculou-se na Faculdade de Direito, porém, novamente, abandonou o curso. Voltou à casa paterna, em 1870, onde passou a compor suas obras. Seu segundo casamento foi com Maria Belisária de Brito Lambert. Com ela, teve três filhos, duas meninas e um menino, este também morreu prematuramente. Mudou-se para Niterói, RJ, com a família. Apesar dos infortúnios e dificuldades, nunca parou de escrever suas poesias e também não deixou de frequentar a vida noturna do Rio. É patrono da cadeira número 11 da Academia Brasileira de Letras. A poesia de Fagundes Varela revela uma profunda angústia e uma forte apelação religiosa e mística. Morreu prematuramente aos 34 anos, de apoplexia.


A cruz

Estrellas Singelas, Luzeiros Fagueiros Esplendidos orbes que o mundo aclarais, Desertos e mares, florestas vivazes, Montanhas audazes, que ao sol rastejas! Campinas Divinas! Cavernas Eternas! Extensos, Immensos Espaços Celestes! Rochedos bravios! Abysmos sombrios! Ergastulos frios! Internos terrestres! Sepulchros e berços, mendigos e grandes! Curvai-vos ao vulto sublime da cruz ! Só ella nos mostra da gloria o caminho, Só ella nos falla das Leis de Jesus !

Em: Andorinha, ano 1, n. 1, jun. 1929.

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Felipe d' Oliveira


Felipe Daudt d' Oliveira nasceu em Santa Maria, RS em 23 de agosto de 1890 e morreu em Paris em 17 de fevereiro de 1933. Farmacêutico, escritor e poeta. Filho de Filipe Alves de Oliveira e de Maria Adelaide Daudt de Oliveira. Não conheceu seu pai, pois este foi assassinado em conflitos políticos antes de seu nascimento. Coube ao tio materno, João Daut Filho, auxiliar na sua educação. Este o conduziu ao mundo dos negócios trabalhando na Daudt, Oliveira & Cia.
Ainda jovem, em sua terra natal, publicou versos e artigos de crítica literária em O Combatente.
Formou-se em farmacêutico em 1908, pela Faculdade Livre de Medicina e Farmácia em Porto Alegre. Já nessa época colaborava com alguns periódicos como: o Correio da Manhã, a revista Fon-Fon, onde escrevia utilizando seu próprio nome e também sob o pseudônimo de Gavarni, Gazeta de Notícias, e a revista Ilustração Brasileira publicada por Álvaro Moreyra.
Em 1911 publicou seu primeiro livro de poesias intitulado Vida extinta, mas foi somente em 1926, que publicou o segundo livro chamado Lanterna verde. Depois de sua morte foram publicados duas obras de sua autoria, Alguns poemas e Livro Póstumo, em 1937, e em 1938, respectivamente.
Seu poema Magnificat foi citado pelo Dr. Manuel de Sousa Pinto professor da Cadeira de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras de Coimbra, durante a conferência Poesia Moderníssima do Brasil, "em virtude do sentimento de continentalidade americana". Este poema foi publicado no Jornal do Commercio, do dia 11 de janeiro de 1931.
Foi exilado na França, ao apoiar em 1932, a Revolução Constitucionalista, por este motivo ficou sendo procurado pela polícia, mas sem sucesso. Em 1933, morreu em um acidente de carro em Auxerre, perto de Paris. Após este acontecimento, seu irmão João Daudt de Oliveira e alguns amigos, criaram em sua homenagem, a Sociedade Felipe d`Oliveira.
Infinitode sua autoria ilustra a revista Bazar.


Infinito

Nós estamos face a face.
Tu te refletes em mim,
eu me reflito em ti
(espelhos paralelos)
e entre nós dois
o estado normal:

vasio impaciente
á espera de uma alegria ou de uma tristeza
que
multiplicada por si mesma
venha encher a galeria incomensuravel
de nossas vidas face a face.

Em: Bazar, ano 1, n.4, nov.1931.

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Fernando Caldeira


Fernando Caldeira nasceu na freguesia de Borralha, Conselho de Águeda, Portugal, em 7 de novembro de 1841 e morreu em 1894, filho do visconde de Borralha, Francisco Caldeira Leitão Pinto de Albuquerque de Brito Moniz, e de Inês de Vera Geraldes de Melo Sampaio e Bourbon., nobres portugueses. Cursou direito pela Universidade de Coimbra, bacharelando-se em 1861. Poeta e dramaturgo, ainda jovem entrou na política, filiando-se ao Partido Constituinte. Representou como deputado o círculo eleitoral de Águeda (1865-1868) e o círculo plurinominal de Aveiro (1880-1884). Foi governador civil de Aveiro, em 1870. Sua ligação com o jornalismo se deu através de sua colaboração no Diário da Manhã e na direção do Tempo, órgão do partido a qual pertencia. Sua primeira peça teatral, a comédia O sapatinho de setim, foi escrita em 1876. A seguir vieram A varina (1877), Os missionários (1879), Fló-Fló (1880), A mantilha de renda (1880) – comédia em verso –, A chilena (1884), As nadadoras (1884), A madrugada (1892) – comédia em quatro atos, representada pela primeira vez no teatro de D. Maria II, em 26 de abril de 1892 –, A congressista, A mosca, O burro do Sr. Alcaide, entre outras. Poeta lírico, publicou apenas um livro, Mocidades, em 1882. Os poemas incluídos neste livro tornaram-se bastante conhecidos na época. Foi homenageado e seu nome lembrado na Escola Preparatória Fernando Caldeira. O soneto "Penas" foi incluído não só em um manual escolar, mas também nas páginas de A Vida Elegante.


Penas

Como differem das minhas
As pennas das avesinhas,
Que de leves leva o ar!
As minhas pesam-me tanto,
Que ás vezes já nem o pranto
Lhes allivia o pesar.

O passarinho tem pennas,
Que em lindas tardes amenas
O levam por esses montes,
De collinas em collinas
Ou nas extensas Campinas
A descobrir horizontes.

Com ellas vive folgando;
Tem penas apenas quando
Alguma penna lhe cae;
Mas a essa pena affaz-se,
entretanto a outra nasce
e tudo esquece e... lá vae

E as minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Commigo d'esta amargura!
Mostram-me apenas na vida
A estrada, já conhecida,
Trilhada dos sem ventura.

Passam dias passam mezes
Passa o anno muitas vezes
Sem que uma pena se vá!...
E, se uma vae mais pequena,
Ao depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá.

São bem felizes as aves!
Como são leves, suaves
As pennas, que Deus lê deu!
Só as minhas pesam tanto!...
Ai! se tu soubesses quanto!...
Sabe-o Deus e sei-o eu.

Em: A Vida elegante, ano 1, n. 1, mar. 1909.

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Flexa Ribeiro


José de Flexa Ribeiro nasceu em Faro, PA, em 19 de junho de 1883. Poeta, crítico de arte, jornalista, colaborou em jornais do país, e do exterior como La Prensa, de Buenos Aires e Le Figaro, de Paris. Diplomou-se em direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1913. Fundou com outros companheiros a publicação Pará-Revista, em 1903, e a Revista do Ensino. Colaborou com a revista Cenáculo. Sua obra poética inclui: Episódio trágico (poema de 1905), Sol (1906), Lituânia pagã (1907) e O amor e a morte (1914). Em destaque, o soneto intitulado "Supremo".



Supremo

Os teus olhares feitos de carinho,
De Extrema-Uncção, de mysticos luares,
Têm na expressão, ó santa dos Altares,
A velludosa maciez do arminho.

E no doce brilhar – áureo caminho –
A profundeza intérmina dos mares...
Têm na expressão, ó Santa, os teus olhares
A velludosa maciez do arminho.

São puros como as Hóstias dos Sacrários,
têm o brilho divino de Stellarios,
quando me fitam numa uncção extrema.

São rútilos santelmos guiadores,
são as dhulias lithurgicas das dores,
da minha Crença immácula e suprema!

Em: Cenáculo, ano 1, fasc. 3, ago. 1900.

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Fontoura Xavier


Antonio Vicente da Fontoura Xavier nasceu em Cachoeira do Sul, RS, em 07 de julho de 1956 e morreu em Lisboa, em 01 de abril de 1922. Filho de Gaspar Xavier e de Clarinda Amália da Fontoura. Seus primeiros estudos foram em sua cidade natal e o secundário no Rio de Janeiro. Em 1876 entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo, não concluindo o curso. Foi colaborador de vários periódicos como Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada. Fundou com Artur de Azevedo e Anibal Falcão o jornal Gazetinha, em 1880 no Rio de Janeiro. Foi redator de A Semana, periódico carioca de 1883. Usava pseudônimos como: Poff e Irmão de Batista Xavier.
Foi tradutor de poemas de Edgar Allan Poe, Baudelaire, Jean Moréas e Shakespeare. É patrono da Academia Rio-Grandense de Letras. Lançou um manifesto em versos contra a monarquia, intitulado O Régio Saltimbanco, em 1887. No periódico Tiradentes, Fontoura Xavier escreveu o poema Pedra falsa, mais uma manifestação de sua insatisfação com a monarquia.



Pedra falsa
Ao povo

Na corôa que Cezar cinge agora
Ao grito redemptor da nova aurora,
Vacilla a pedra negra do destino.
N'essa joia que a corte tanto exalsa
Reconhece-se emfim a pedra falsa
Do direito divino.

Tu, que há muito acordaste aos pés do throno,
Arranca aquella pedra as mãos do dono,
Substitue por um brilhante novo!
E que aos olhos de quantos te aviltasta
Appareça a inscripção do novo engaste:
“Do direito do povo!”

Em: Tiradentes : orgam republicano, anno 1,n.5(maio 1881)

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Francisca Júlia da Silva


Francisca Júlia da Silva Münster nasceu em Xiririca, atual Eldorado, SP, em 31 de agosto de 1871 e morreu em São Paulo, SP, em 1 de novembro de 1920, filha de Miguel Luso da Silva e de Cecília Isabel da Silva, e irmã do poeta Júlio César da Silva. Começou bem jovem sua carreira literária escrevendo sonetos para o Estado de S. Paulo, em 1891. Entre 1892 e 1895 escreveu para o Correio Paulistano. Além destes escreveu também para periódicos do Rio de Janeiro, como O Álbum, mantido por Arthur Azevedo, e A Semana, dirigido por Valentim Magalhães. Em 1895 lançou seu primeiro livro de poesias intitulado Mármores, com prefácio do filólogo e historiador João Ribeiro. Este livro foi de grande sucesso em todo o país, recebendo críticas consagradoras de Olavo Bilac e Araripe Júnior. Alguns críticos consideraram-na, em sua época, a maior poetisa da língua portuguesa. O livro da infância, coletânea de pequenos textos narrativos em prosa e verso, escrito em 1899, foi prefaciado pelo seu irmão Júlio César da Silva e publicado pelo Governo de São Paulo. Este livro foi adotado por escolas públicas e particulares. Foi cofundadora da revista Educação em 1902. Em 1903 lançou novo livro de poesias intitulado Esfinges, prefaciado mais uma vez pelo seu admirador João Ribeiro. Em 1909, casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Central do Brasil. Durante alguns anos afastou-se da vida literária dedicando-se exclusivamente ao lar. Em 1912, lança Alma infantil, coletânea de poesias, em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva. Em 1915 voltou a publicar sonetos na revista A Cigarra. Aos 46 anos foi homenageada por poetas seus admiradores, que ofereceram um busto seu, em bronze, para a Academia Brasileira de Letras. Teve seu trabalho publicado em várias revistas, como A Mensageira, Rua do Ouvidor, Kosmos, O Pirralho, A Época, Revista do Brasil, Revista da Semana, A Vida Moderna, Comércio de Campinas, Renascença.



Supremo

Os teus olhares feitos de carinho,
De Extrema-Uncção, de mysticos luares,
Têm na expressão, ó santa dos Altares,
A velludosa maciez do arminho.

E no doce brilhar – áureo caminho –
A profundeza intérmina dos mares...
Têm na expressão, ó Santa, os teus olhares
A velludosa maciez do arminho.

São puros como as Hóstias dos Sacrários,
têm o brilho divino de Stellarios,
quando me fitam numa uncção extrema.

São rútilos santelmos guiadores,
são as dhulias lithurgicas das dores,
da minha Crença immácula e suprema!

Em: Cenáculo, ano 1, fasc. 3, ago. 1900.

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Gonçalves Crespo


António Cândido Gonçalves Crespo nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de março de 1846, e morreu em Lisboa, em 11 de junho de 1883, filho de Antônio José Gonçalves Crespo, negociante português, e de Francisca Rosa. Aos 14 anos e com problemas de saúde, foi enviado pelo pai a Portugal. Em 1877, formou-se em direito pela Universidade de Coimbra, onde conheceu e fez amizade com intelectuais. Casou-se, em 1874, com a escritora e poetisa portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921), com quem teve três filhos. Político e membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, colaborou com o periódico O Ocidente e com a revista A Folha, ao lado de Guerra Junqueiro e Antero de Quental, dirigida por João Penha, introdutor do parnasianismo em Portugal. Colaborou também em diversos jornais portugueses, como Mosaico e Literatura Ocidental, de Coimbra, e foi redator do Jornal do Comércio, de Lisboa. Influenciado pela escola parnasiana, abandonou a estética romântica. Suas poesias foram reunidas nas coletâneas Miniaturas (1871) e Nocturnos (1882). Escreveu, em colaboração com Maria Amália, o livro Contos para nossos filhos, publicado em 1886.


A Noiva

A noiva passa rindo
De rosas coroada,
Como um botão surgindo
A´luz da madrugada.

Na fronte immaculada
O véu lhe desce lindo,
E a brisa ennamorada
Lhe furta um beijo infindo.

Ante o altar se inclina
A noiva, e purpurina
Murmura a medo: "Sim."

Agora é noite; a lua
No céo azul fluctua,
E o noivo diz: "Enfim!"

Em:O Esfolado, n. 1, set. 1904.

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Goulart de Andrade


José Maria Goulart de Andrade nasceu em Maceió, em 6 de abril de 1881, e morreu no Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1936, filho de Manuel Cândido Rocha de Andrade e Leopoldina Pimentel Goulart de Andrade. Jornalista, engenheiro, geógrafo, poeta, cronista, romancista e teatrólogo, fez em Maceió os cursos primário e secundário. Foi com 16 anos para o Rio de Janeiro, onde ingressou em um curso preparatório da Escola Naval. Mais tarde deixou a Escola Naval indo matricular-se na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde se formou como engenheiro em 1906. Seu desejo, porém, era ser um homem dedicado às letras. Vinculou-se a um grupo de poetas, entre os quais Guimarães Passos, Olavo Bilac, Emílio de Menezes e Martins Fontes. Seus poemas são considerados formas poéticas complexas, incluindo o rondó, o vilancete, a balada e, sobretudo o canto real – gêneros líricos. Como jornalista foi redator de O Imparcial, onde conviveu com João Ribeiro, Humberto de Campos e Augusto de Lima, escritores e colaboradores deste jornal. Escreveu inúmeros trabalhos na Revista da Academia Brasileira de Letras. De sua obra destacamos Assunção, romance produzido em 1913, publicado anteriormente pelo Correio da Manhã, Poesias em 1917 (2 volumes), e Ocaso de 1934. Peças teatrais como Os Inconfidentes e Numa nuvem (1909), Um dia a casa cai, comédia e Contos do Brasil novo (1923). Foi eleito em 22 de maio de 1915 para a Academia Brasileira de Letras, cadeira número 6, cujo patrono é Casimiro de Abreu.


A Inveja

De unhas pretas, de olhar absconso e bocca hedionda
Procura a escuridão de corrupta pousada,
Que em detrictos lethaes e immundiciais aronda,
A torpe inveja, mãe do crime e da cilada.

Quando tudo adormece a satânica ronda
Começa: e suja a flor, deixa a lympha turbada,
Contra os astros impreca os ninhos esbarronda
E golfa espuma e atira a baba empeçonhada.

Onde quer que repouze a turva e má pupila
Amizades destróe e a concordia aniquila:
Nem ha bem que não mate e mal que não aborde!

De demencia tomada e de cólera extrema,
Escabuja e se fere, urra, grita, blasphema,
Como serpe que em raiva a propria calda morde.

Em: A Evolução litteraria, ano 1, n. 1, abr. [1911].

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Guerra Junqueiro


Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta, Portugal, a 17 de setembro de 1850 e morreu em Lisboa, a 7 julho de 1923. De família abastada e extremamente católica, frequentou a Faculdade de Teologia, entre 1866 e 1868, abandonando-a para estudar direito, na Universidade de Coimbra (1868-1873). Em Coimbra começou a frequentar ambientes intelectuais e políticos. Fez parte do grupo Vencidos da Vida, formado por intelectuais que se destacavam no cenário cultural português. Faziam parte deste grupo, além de Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós entre outros. Iniciou carreira literária em Coimbra, no jornal A Folha. Em Lisboa, colaborou na revista Lanterna Mágica (1875). Enveredou pela política, filiando-se ao Partido Progressista. Foi secretário dos governos de Angra do Heroísmo, nos Açores, e Viana do Castelo. Elegeu-se deputado pelo círculo de Quelimane, Moçambique, em 1880. Mystical nuptiae, sua primeira publicação, é de 1866. Em 1874, publicou A morte de D. João e, em 1879, A musa em férias, coleção de poemas. Romancista, escreveu A velhice do padre eterno (1875), Prosas dispersas (1921), e Horas de combate (1924, obra descoberta após sua morte). Como poeta escreveu Duas páginas dos catorze anos (1864), Vozes sem eco (1862), Baptismo do amor (1868), entre outras.


O Primeiro Berço

Entre tanta miseria e tantas coisas vis
D'este vil grão d'areia.
Inda tenho o condão de me sentir feliz
C'o a felicidade alheia.

A minha noite escura, á noite tormentosa
Onde busco a verdade.
Chegou co'as azas de oiro a canção cor de rosa
Da tua f'licidade:

E's pae! Viste nascer um fragmento de aurora
Da tua alma, de ti!
Oh! Minuto divino em que o sorriso chora
E em que o pranto sorri!

Que ventura radiante, oh que ventura infinda!
Que olympicos amores!
Ter fructos em abril com o vergel ainda
Estrellado de flores!

Deslumbramento! Vêr num berço o teu futuro
Sorrindo ao teu presente!
Ter a mulher e a mãe; juntar o beijo puro
Com o beijo innocente.

Eu que vou, javali de flanco ensangüentado
Pelos rudes caminhos,
Ajoelho quando escuto á beira d'um vallado
Os murmúrios dos ninhos.

Em tudo o que alvorece há um sorriso d'esperança...
Candura immaculada!
E quer seja na flor, quer seja na creança,
Sente se a madrugada.

Quando, com um aroma, o hálito da infância
Roça nos lábios meus,
Vejo distinctamente encurtar-se a distancia
Entre a nossa alma e Deus.

A mão para apontar o azul, mão cor de rosa,
Que aconselha e domina,
Será tanto mais forte e tanto mais bondosa
Quanto mais pequenina!

Em: A Vida elegante, ano 1, n. 2, mar. 1909.

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Guiomar Torrezão


Guiomar Delfina de Noronha Torrezão, nasceu em Lisboa em 26 de novembro de 1844 e morreu em 22 de outubro de 1898. Ficionista, poetisa, dramaturga e ensaísta. Colaborou com a revista Ribaltas e gambiarras (1881), editada por Henrique Zeferino, onde escrevia com o pseudônimo de Delfim de Noronha, em seus dez primeiros números. A partir de então, passou a revelar sua verdadeira identidade nos artigos e cabeçalhos. Fundou e dirigiu a revista Almanach das Senhoras (1871). No Diario illustrado escrevia com o pseudônimo Gabriel Cláudio. Escreveu, No Theatro e na sala, obra prefaciada por Camillo Castelo Branco. A peça, Educação moderna, comédia em 3 actos, antecedida de uma conversa preambular, representada pela primeira vez em Lisboa, no Teatro do Ginásio, em 28 de março de 1891. Dois garotos, drama em 5 atos, 1879, Educação moderna, comédia em 3 atos, 1884, O fraco da baronesa, comédia em 1 ato, 1878. Escreveu os romances Uma alma de mulher, 1869, Rosas pálidas, 1873, Henriqueta, 1890, entre outros. É de sua autoria, o poema Beatriz, publicado na revista A Mensageira






Beatriz

Visão que surges n' estas horas mágicas
como eu te imploro a suspirar por ti!
como eu te vejo esvoaçar no espaço...
como aos teus olhos meu olhar prendi!

Ai! se lograsse de minh' alma as trevas
nos raios teus illuminar, estrella!...
Passae, ó nuvens que toldaes o astro,
deixae-me, nuvens, adoral-a e vel-a!

Oh! Quem podéraesta existência dar-lhe
primícias pobres de opulento amor,
e no meu extasis estreital-a ao peito,
trocando em jubilo esta immensa dor!

Ao longe, embora, tu sorris altiva!...
E eu vivo e fico a suspirar em vão!
Estrella esplende no teu céo sereno,
Mas dá-me um raio d'esse teu clarão!

Em: A Mensageira, ano 2,n.25, fev.1899

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Gustavo Teixeira


Gustavo de Paula Teixeira, nasceu em São Pedro, SP, em 4 de março de 1881, e morreu na mesma cidade, em 22 de setembro de 1937, filho de Francisco de Paula e Silva e Miquelina Teixeira Escobar e Silva. Sua estreia como poeta ocorreu em 1908 com Ementário, com prefácio de Vicente de Carvalho, em que seus poemas seguem a linha parnasiana com algumas notas simbolistas. Em 1925, publica Poemas líricos onde o simbolismo já presente na obra anterior, avoluma-se, tornando-se mais evidente seu gosto pelo verso escultural. Em Poesias completas, há uma tendência à religiosidade e uma certa melancolia em seus versos. Durante um pequeno período viveu em São Paulo, onde tentou cursar jornalismo. Voltou a São Pedro em 1905, onde ocupou o cargo de secretário da Câmara Municipal e da Prefeitura de São Pedro até o fim da vida. Em 1937, à sua revelia, foi eleito para Academia Paulista de Letras, como sucessor de Paulo Setúbal, onde passou a ocupar a cadeira de número 10, cujo patrono é Cesário Mota Jr. Na revista Campinas encontramos o poema de sua autoria, "Maria Magdalena".


Maria Magdalena

Em casa de Simão, Maria de Magdala,
Numa ceia, offerece ao Celestial Esposo
Num vaso de alabastro um balsamo precioso,
De puro nardo, que perfuma toda a sala.

Com as lindas mãos em que arde apenas uma opala
- Gotta de luz que evoca um tempo tenebroso, -
Unge o Senhor que a envolve, erguendo o olhar piedoso,
Na claridade que no céo ha de nimbal-a.

Judas, com sua voz de reprobo, condemna
O gesto angelical da linda Magdalena.
Talvez aninhe dentro da alma um odio velho.

Diz-lhe Jesus: - "Deixae-a! O que ella faz agora
Será lembrado pelos seculos afóra
Em todo o mundo onde se prégue este Evangelho!"

Em: Campinas, ano 1, n. 1, out. 1936.

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Henriqueta Lisboa


Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari, MG, em 15 de julho de 1901 e morreu em Belo Horizonte em 9 de outubro de 1985, filha de João de Almeida Lisboa, deputado federal, e de Maria Rita Vilhena Lisboa. Foi poeta, tradutora, ensaísta e, ainda, docente de literaturas hispano-americana e brasileira e de literatura geral. Fez o curso normal no Colégio Sion em Campanha, MG.

Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1924. Seu primeiro livro de poemas, publicado em 1925, intitulava-se Fogo fátuo, de tendência simbolista, traço marcante de sua obra até a década de 1940. Recebeu durante sua vida vários prêmios: em 1931, foi agraciada com o Prêmio de Poesia Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras pelo livro Enternecimento; em 1952, a Câmara Brasileira do Livro premiou seu livro infantil Madrinha lua; pelo conjunto de sua obra obteve três prêmios, a Medalha da Inconfidência de Minas Gerais em 1955, o Prêmio Brasília de Literatura em 1971 e o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras em 1984.

Sua extensa produção intelectual é composta por ensaios literários, traduções, organização de antologias de poesias. Colaborou com várias revistas editadas no Rio de Janeiro e Minas Gerais, entre as quais O Malho, Revista da Semana, A Manhã, O Jornal, com a revista Kosmos e com a revista Festa ao lado de Gilka Machado e Cecília Meireles. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Entre 1940 e 1945 manteve com o escritor Mário de Andrade, uma vasta correspondência, onde discutiam temas pessoais e literários.

Foi a primeira mulher eleita para a Academia Mineira de Letras em 1963, onde ocupou a cadeira de nº 26. Sua poesia tornou-se conhecida no exterior, sendo traduzida em várias línguas, como o francês, inglês, italiano, espanhol, alemão e latim. Henriqueta Lisboa traduziu obras de Dante, Guillén, Gabriela Mistral, entre outros. Em Senhorita X, encontramos o poema Quando tenhas de vir, de sua autoria.


Quando tenhas de vir

Quando tenhas de vir, Amor, que escolhas
o recanto mais vago, a hora mais linda.
Pesam ao galho verde tantas folhas
e estou anciosa pela tua vinda.

Quando tenhas de vir, escolhe o instante
em que a tristeza paire, leve no ar.
Ao crepúsculo, a sós, o olhar distante,
é quando a gente principia a amar.

Sôem teus passos harmonicamente.
Insinua-te aos poucos. Sombra e calma.
Tenho horror que tu chegues de repente,
e não encontres alma na minha alma.

Que eu fique sem saber quando é que vieste,
quando é que a luz se fez ao nosso olhar.
Seja assim como a nevoa azul-celeste
onde á curva do céo se une a do mar.

Fecho os olhos á espera... Desce a tarde.
Está sereno o parque, envolto em bruma.
Perpassa a brisa sem fazer alarde,
sem assustar no ramo ave nenhuma.

Seja assim nosso enlevo... Manso quasi
imperceptivel para o derredor.
Que ande musica ou verso em cada phrase,
para que eu possa comprehender melhor.

E emquanto as flores dormem, sem saber
que doce aroma trescalando então,
que me desperte brandamente o ser
um beijo suave sobre a minha mão.

Em: Senhorita X!... : revista mensal, social e illustrada, ano 1, n. 1, out. 1932.

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Hermes Fontes


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes, conhecido como Hermes Fontes, nasceu em Buquim, SE, em 28 de agosto de 1888 e morreu no Rio de Janeiro, em 25 de dezembro de 1930. Filho de Francisco Martins Fontes e Maria de Araújo Fontes, foi compositor e poeta. Aos dez anos, foi para o Rio de Janeiro. Aos 15 anos, colaborava com o jornal O Fluminense. Formou-se bacharel em direito em 1911, porém não exerceu a profissão. Fundou, em 1904, o jornal Estréia, com Júlio Surkhow e Armando Mota. Colaborou com os principais jornais e revistas do Rio de Janeiro e São Paulo, entre eles: Rua do Ouvidor, Folha do Dia, Imparcial, Correio Paulistano, Diário de Notícias, Correio da Manhã, Careta, Fon-Fon, Tribuna, Tagarela, Atlântida, O Malho e Kosmos. No jornal O Bibliógrafo atuou como caricaturista. Participou da organização da Academia Sergipana de Letras, tendo o seu nome figurado na ata de primeiro de junho de 1929, como fundador da cadeira de número 16, cujo patrono era o poeta Pedro de Calasans. Sua vida foi pautada por desilusões e amarguras. Por cinco vezes tentou entrar para a Academia Brasileira de Letras, porém não conseguiu. Em 1908, publicou seu primeiro livro de poesias, Apoteoses. Sua obra é composta por Gêneses (1913), Ciclo da perfeição (1914), Miragem do deserto e Epopeia da vida (1917), Microcosmo (1919), A lâmpada velada e Despertar (1922), A fonte da mata (1930). Compôs, em parceria com Freire Júnior, as músicas Luar de Paquetá e A beira mar, cujos versos são de sua autoria. A poesia de Hermes Fontes é de estética simbolista.


Extremos

Grão de areia, _ és a idéa estéril da Hulmildade.
Constellação, _ a idea ubérrima da Pompa.
Que tem que à Terra o Nada os areaes arrecade,
Desde que em pleno Azul um mundo novo irrompa?

Poeira! Restos de algum solar que retrograde!
Clarão! Poeira de luz! Luz! _ eco da áurea Trompa,
Com que o Sol canta, esplende e rege a Immensidade,
A ver que a alma dos céos não se tolde ou corrompa!

Vésper! Que és tu, senão... grão-de-areia fulgente?!
Sabará! Que és tu, senão _ lousas desfeitas, lousas
De arcabouços de sóes que já não dão semente?!...

Quanto te illudes, Pompa! Ah! Quanto sonhas e ousas!
_ Na inconstância da Vida, _ está constantemente,
_ A Republica, _ a União... a Egualdade das cousas...

Em: O Baile, n. 1, maio 1906.


A Felicidade

Existe. Eu a conheço. Ouço-a e lhe falo. Fito
os meus olhos nos seus.; e, exaltando-a, me exalto,
Vou tocal-a, porém... - há entre nós o Infinito...
Foge o horizonte, o céo espuma-se em cobalto!...

Minha Felicidade! Hei de attingil-a ! salto
muralha por muralha, ergo-me, vôo, agito
todas as azas da Alma, e vou de sobresalto
em sobresalto, ao léo desse enganoso Mytho...

Antes de te sonhar, vi-te e, antes de buscar-te,
vieste! Mas, para amar-te, urge que eu me descentre
o Ideal para Ambição … E-ai! dos meus sonhos de arte!

E ai! de mim que sonhei ser feliz, e deponho
minha Felicidade e minhas glórias, entre
a grilheta da Vida e a redempção do Sonho!...

Em: A Faceira, ano 2, n. 12, jul. 1912.

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Jorge de Lima


Jorge Mateus de Lima nasceu em União dos Palmares, AL, em 23 de abril de 1893 e morreu no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1953. Político, médico, biógrafo, romancista, poeta, tradutor, ensaísta e pintor. Filho de José Mateus de Lima, dono de engenho, e de Delmina Simões de Mateus de Lima. Iniciou seus estudos em sua terra natal completando-os, em Maceió, no Instituto Alagoano. Em 1911 foi para Salvador, onde começou o curso de medicina, mas foi no Rio de Janeiro que o concluiu, em 1915 na Faculdade de medicina do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano voltou a Maceió, onde dedicou-se à medicina, a literatura e política assumindo diversas atividades como professor e diretor da Escola Normal, do Liceu Alagoano. Em 1919, foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano de Alagoas, assumindo a Presidência da Câmara durante dois anos. Escreveu seu primeiro poema aos 14 anos intitulado O Acendedor de lampiões.
Seu primeiro livro de poesias foi publicado em 1925 , O Mundo do Menino Impossível, e, em 1929, Essa Negra Fulô publicado no livro Novos Poemas. Em 1930 voltou ao Rio de Janeiro e foi lecionar medicina na Universidade do Brasil e na Universidade do Distrito Federal. Montou seu consultório na Cinelãndia, onde fazia ponto de encontro de intelectuais como Murilo Mendes, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Voltou à vida política se elegendo vereador em 1935. Mais tarde, em 1948, ocupou à Presidência da Câmara dos Vereadores.
Ao se converter ao catolicismo, seus poemas desde então passaram a refletir sua religiosidade. Nesta época, 1935, publicou Tempo e Eternidade, Invenção de Orfeu e Livro de Sonetos. A Academia Brasileira de Letras concedeu-lhe o Grande Prêmio de Poesia, em 1940. Em 1944 candidatou-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, não obtendo êxito.
Em 1952 foi fundada a Sociedade Carioca de Escritores onde Jorge de Lima foi o primeiro presidente provisório.
Foi homenageado em 1975 pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, com o tema Imagens poéticas de Jorge de Lima, obtendo o segundo lugar. Encontramos na revista Bazar de sua autoria, Poema relativo.


Poema relativo

Vinde ó bem-amada,
junto á minha casa
tem um regato (até quieto o regato.)

Não tem passaros, que pena!
Mas os coqueiros fazem
quando o vento passa,
um barulho que ás vezes parece
bate-bate de azas

Suponha, ó bem-amada,
se o vento não sopra,
podem vir borboletas
á procura das minhas jarras
onde ha flores debruçadas,
tão debruçadas que parecem escutar.

Todos os homens têm seus crentes
ó bem-amada:
__! os que prégam o amor do proximo
e os que prégam a morte dele.

Mas tudo é pequeno
e ligeiro no mundo, ó amada,
só o clamor dos desgraçados
é cada vez mais imenso.

Vinde ó bem-amada.
Junto á minha casa
tem um regato até manso.

E os teus passos podem ir devagar
pelos caminhos:
aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfalto.

Vinde ó bem-amada,
porque como lhe disse
se não há passaros no meu parque,
poder ser se o vento
não soprar forte
que venham borboletas.
Tudo é relativo
e incertono mundo
. Tambem tuas sobrancelhas
parecem azas abertas.

Em: Bazar, ano 1, n.4, nov.1931.

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Júlia Lopes de Almeida


Nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862 e morreu na mesma cidade em 30 de maio de 1934. Colaborou com seus contos e poemas em A Mensageira, Única e Kosmos, revistas dedicadas às mulheres e escritas principalmente por mulheres. Escreveu também em jornais produzidos por mulheres. Dedicou-se também a escrever livros escolares.

Publicou: A Família Medeiros em 1892, A Viúva Simões em 1897, Eles e elas em 1910. Publicou também A Silveirinha em 1913, Pássaro tonto publicado em 1934, Correio da Roça em 1913. Faz parte também de suas obras: A Falência, Memórias de Marta e Livro das noivas. Publicou também os seguintes livros infantis: Contos infantis em 1886 - escrito com sua irmã Adelina Lopes Vieira - Histórias da nossa terra em 1907, A Árvore em 1916, Era uma vez em 1917 e Jornadas no meu país em 1920.


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Júlio Maciel


Júlio Barbosa Maciel nasceu em Baturité, CE, em 28 de abril de 1888 e faleceu em Fortaleza, em 8 de abril de 1967, filho de Raimundo Ferreira Maciel e Emília Barbosa Maciel. Poeta parnasiano, estudou em Fortaleza no Colégio Colombo e no Liceu do Ceará. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Começou suas atividades literárias com apenas 15 anos, no Grêmio Barbosa de Freitas, escrevendo seus versos na revista 31 de Agosto, publicação pertencente ao Grêmio. Na revista Terra da Luz (1908) de Joaquim Pimenta, foi também colaborador, onde publicou o soneto Jacarecanga, considerado um dos seus melhores poemas. Colaborou na revista Fortaleza (1906-1907), onde publicou os sonetos "O Relógio" e "Ressurreição", que fizeram parte livro Terra mártir, lançado em 1918. "Os Grous", também publicado na mesma revista, apareceu posteriormente no livro Poemas da solidão (1943). Usava os pseudônimos Rubens da Maia e Lúcio Várzea. Membro da Academia Cearense de Letras, cadeira de número 28, cujo patrono é Mário da Silveira.


Os Grous

´... quando um caçador atira num
bando de grous, e fere a um delles,
os outros o cercam mal o vêem fraquear
o vôo e o amparam...`v

Libérrimo e veloz, em compacta fileira,
Alto, a pompear o sol o plumacho opulento,
Dominando a floresta e a montanha altaneira,
Passa a leva dos grous, em pleno firmamento.

Passa. Subito um tiro acorda a selva inteira.
E, qual si a ellas movera humano entendimento,
Eis as aves sustêm infeliz companheira,
Que roda no ar, fechando o remigio sangrento!...

E emquanto um caçadôr, a carabina em pouso,
Faiscando, presos no ar, os olhos como brasas,
A sua opima caça, abaixo, aguarda, anciôso:

Alto, a pompear ao sol, lá vão os grous, em bando;
Irmanados lá vão, nas protectoras azas,
Espaço acima, o grou moribundo levando !

Em: Fortaleza, ano 1, n. 12, out. 1907.

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Júlio Salusse


Júlio Mário Salusse, filho de Júlio Mário Salusse e de Hortência Maria de Queirós, nasceu na fazenda do Gonguy em Arraial do Senhor do Bom Jesus, atual município de Bom Jesus do Itabapoana, RJ, no dia 30 de março de 1872 e morreu no Rio de Janeiro em 30 de janeiro de 1948. Poeta e escritor, publicou seus primeiros versos na Gazeta de Notícias. Iniciou o curso de direito pela Faculdade de Direito de São Paulo, porém não o concluiu. Ao herdar do avô uma grande fortuna, viajou para a Europa, onde levou uma vida entre festas e farras, gastando grande parte de sua herança. Voltando ao Brasil, conclui o curso de direito, indo advogar e atuando como promotor público em Paraíba do Sul e, mais tarde, em Nova Friburgo. Publicou Nevrose azul (1884), sua primeira obra, Sombras (1901) e a novela A negra e o rei (1927). Graças ao soneto O cysne de sua autoria, ficou conhecido como o Poeta dos Cisnes.


O cysne

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem névoas nem espumas,

Sobre elle quando, desfazendo as brumas
Matinaes, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dous boiamos indolentemente,
Como dous cysnes de alvejantes plumas.

Um dia um cysne morrerá, por certo;
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cysne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

Em: Almenáras, ano 1, n. 1, mar. 1921.

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Juvenal Galeno


Juvenal Galeno da Costa e Silva nasceu em Fortaleza, CE, em 27 de setembro de 1836, e morreu na mesma cidade, em 7 de março de 1931, filho de José Antônio da Costa e Silva, e de Maria do Carmo Teófilo e Silva. Foi o criador da poesia de motivos e feição populares no Brasil. É considerado o pioneiro do folclore do nordeste. Seus versos reproduzem os costumes, as crendices, os folguedos, os sentimentos e a bravura do povo de sua terra. Foi para o Rio de Janeiro estudar "assuntos de lavoura", conforme desejo de seu pai. No Rio, fez amizade com Paula Brito frequentando sua tipografia, onde conheceu alguns intelectuais. Estimulado pelo ambiente que frequentava, escreveu poesias que foram publicadas na revista Marmota Fluminense. Voltou para o Ceará, e exerceu, em Fortaleza, a função de diretor da Biblioteca Pública até 1908, tendo sido afastado por problemas de saúde. Perdeu a visão por causa de glaucoma. Foi sócio fundador do Instituto do Ceará. Ocupou a cadeira 23 na Academia Cearense de Letras. Colaborou em vários jornais e revistas. Seus versos enriqueceram as páginas da revista Fortaleza com o poema intitulado "Soneto". Publicou em 1856, Prelúdios poéticos, livro com poesias típicas do romantismo e considerado por Mario Linhares e outros, como o marco inicial da literatura cearense. O ponto alto de sua maturidade poética veio com o lançamento de Lendas e canções populares (1865). Colaborador assíduo dos jornais A Constituinte e Pedro II. Com a ajuda das filhas, Henriqueta e Juliana Galeno, poetisas, vê sua casa transformada em Casa Juvenal Galeno, centro de cultura e assuntos literários, em 1919.


Soneto

Quanta lucta, meu Deus, quanta aspereza
Nos caminhos da vida, em toda a parte!
Como a dor fatalmente se reparte
No reino, todos os tres, da natureza.

Do mais pequeno insecto, a mór grandeza;
Em tudo que, o viver térreo comparte;
Do mais ignorante ao de mais arte:
Dos humildes até á realeza.

É que tudo tem alma, evoluindo,
Que parte das maiores profundezas,
As montanhas mais altas attingindo.

E na longa ascensão, quantas surprezas;
Quantas vertigens; que mysterio infindo;
Que immenso labyrintho de incertezas.

Em: Fortaleza, ano 1, n. 5, fev. 1907.

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Leonor Posada


Leonor Posada nasceu em Cantagalo, RJ, em 3 de fevereiro de 1893 e morreu em 1960. Poeta, professora, dramaturga e jornalista, formou-se pela antiga Escola Normal do Rio de Janeiro. Fez uma longa carreira como professora e assumiu a direção de várias escolas. Começou sua atividade na imprensa como escritora em 1940, escrevendo crônicas e poemas. Sua produção literária, em sua maioria, foi destinada ao público infantojuvenil. Homenagearam-na dando seu nome a uma escola pública no Rio de Janeiro. Sua obra foi tema de dissertações de mestrado. Lançou duas coletâneas de poesias, Plumas e espinhos, em 1926, e Serenidade, em 1954. Outros lançamentos didáticos foram Cartinha de Artur José, O livro de Nilda e Leituras cívicas, entre 1940 e 1950. Em 1953 lançou o Guia de redação, e, em 1956, Os primeiros passos na redação. Sua obra literária destinada às crianças foram: Canções infantis, A vingança de Polichinelo, Uma duas argolinhas, e, Quando o céu se enche de balões, entre 1950 e 1960. Destacamos o poema "Na cruzada", publicado na revista Renascença.


Na cruzada

Ao grande mestre Dr. Araujo Viana

Tem sobre a régia fronte um capacete d'ouro
E sobre o largo peito a rígida couraça.
Olhar cheio de luz, bello, entre applausos, passa,
Esvoaçando ao vento o seu cabello louro

Para servir a Deus esquece un gran thesouro:
A jovem mais gracil de poderosa raça.
Não lhe retém o amor, e os olhos não lhe embaça
Sinão a immensa fé, que o anima sem desdouro

No campo do inimigo, eil-o que empunha a lança
E, invocando o Senhor, o mais valente avança
E a victoria conquista ousado e sem temor...

Outro desejo, agora aclara-lhe a puppila:
O ter nos braços seus a encantadora Adylla.
E a victoria alcançar na cruzada do amor...

Em: Renascença, ano 3, n. 29, jul. 1906.

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Leopoldo Machado


Leopoldo Machado de Souza Barbosa, filho de Eulálio de Souza e Anna Izabel Machado Barbosa, nasceu em 30 de setembro de 1891, no Arraial de Cepa Forte, hoje Jandaíra, ao norte do estado da Bahia, e morreu em 22 de agosto de 1957, em Nova Iguaçu, RJ. Jornalista, professor, escritor, poeta, pregador, polemista e dramaturgo, Leopoldo Machado defendeu a doutrina espírita por todos os meios e formas. Líder baiano, foi um dos grandes incentivadores das mocidades espíritas no Brasil, sendo uma das figuras mais importantes do espiritismo brasileiro. Educador por excelência, fundou no município de Nova Iguaçu, onde fixou residência, o Colégio Leopoldo. Casou-se com Marília de Almeida Barbosa, em 31 de dezembro de 1927. Juntos fundaram o Albergue Noturno Allan Kardec e criaram o Lar de Jesus, no natal de 1942, instituição para crianças carentes, onde a educação obedece aos princípios do Espiritismo, sendo, ainda no início do século XXI, uma instituição bastante atuante na Baixada Fluminense. Ocupou a cadeira de número 1 da Arcádia Iguaçuana de Letras, com tese sobre seu patrono, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias. Sua obra é composta por poesias, contos, crônicas e biografias.


Maior sonho

Avaro de si mesmo, afeito à luta e à lida,
Trabalha: sua e cansa. A mão franzina e lesta,
Desbata, lima e pule, aresta sobre aresta,
Para que a obra lhe surja esplendida e vívida!

Produzir é o prazer maior de sua vida,
Trabalha. A sua arte é toda a sua festa,
E por ella tem gasto uma existência honesta,
Levando privações e males de vencida...

Alheiado de tudo, e só, a mente em febre,
Trabalha até que, exhausto, o corpo se lhe alquebre,
Pois só lhe tolhe a faina artística a exhaustão!...

Que se lhe desperdice a vida inteira! em paga,
Basta que seu trabalho um dia, enfim lhe traga
A gloria de attingir, de todo, a PERFEIÇÃO!!

Em: Almenáras, ano 1, n. 2, jun. 1921.

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Lima Barreto


Afonso Henrique de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881 e morreu no Rio de Janeiro, em 1 de novembro 1922, filho de João Henriques de Lima Barreto e de Amália Augusta Barreto. Seus primeiros estudos foram no Liceu Popular Niteroiense, em 1888. Frequentou o Colégio Paula Freitas, em 1896. Foi escritor de vários romances e colaborador em vários periódicos. No Correio da Manhã escreve uma série de reportagens. No Jornal do Commercio publica o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, em folhetins. Na Gazeta da Tarde escreve relatos folhetinescos e a sátira Numa e a Ninfa e, no Correio da Noite publica uma série de crônicas. Seu primeiro romance Clara dos Anjos foi escrito em 1904 (primeira versão). Recordações do escrivão Isaías Caminha foi escrito em 1905, e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, escrito em 1905, só foi publicado em 1919. Em 25 de outubro de 1907 fundou com alguns colaboradores, a revista Floreal sendo seu diretor, editor e mentor intelectual. Candidatou-se em 1919 à Academia Brasileira de Letras, na vaga de Emílio de Menezes, sem obter sucesso. Em 1920, obteve menção honrosa com o romance Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, no concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras. A vida pessoal de Lima Barreto foi pautada por momentos de grande aflição, ao ser internado por duas vezes no Hospício Nacional, em 1914 e em 1919. Colaborou na revista Careta, para a qual escrevia artigos sobre assuntos variados. Na revista Fon-Fon, exercia a função de secretário da redação, deixando gravadas em suas páginas três crônicas escritas sob os pseudônimos de Philéas Fogg e S. Holmes. Como Philéas Fogg escreveu "Falsificações" e "Um novo Sport", em abril e julho de 1907, respectivamente. Como S. Holmes escreveu "Fio de linha", em maio de 1907. Publicou, em 1915, Triste fim de Polycarpo Quaresma, Clara dos Anjos em 1948 (segunda versão). Escreveu os contos "O homem que sabia javanês" e "A nova Califórnia".


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Luiz Guimarães Junior


Luiz Caetano Pereira Guimarães Junior nasceu no Rio de Janeiro em 17 de fevereiro de 1845 e morreu em Lisboa em 20 de maio de 1898. Filho de Luiz Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira.
Poeta, diplomata, romancista e teatrólogo. Seus primeiros estudos foram no Rio de Janeiro, depois em São Paulo, foi para Recife onde fez o curso de Direito, entre 1864 e 1869.
Aos 16 anos escreveu seu primeiro romance intitulado Lírio branco em homenagem a Machado de Assis, que o incentivou a continuar na “carreira de letras.” Isto fez com que ele se dedicasse mais ainda em escrever poesias, contos, comédias. Trabalhou também como jornalista.
Através do poeta e amigo Pedro Luís conseguiu um lugar na diplomacia como secretário de Legação em Londres. Trabalhou em Santiago do Chile, Roma e Lisboa onde veio a falecer.
Em Lisboa,como secretário de Legação, teve a oportunidade de conhecer escritores ilustres como Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Fialho de Almeida.
Foi Ramalho Ortigão que o definiu dizendo: “Como poeta, ele é um primeiro adido à legação da elegância... O seu estilo tem um lavor de renda, uma suavidade de veludo e um fresco perfume de toilette”.
Sua obra é composta de : romances: Lírio branco (1862), A família agulha (1870); Poesias: Corimbos (1866), Noturnos (1872), Sonetos e rimas (1880), Contos sem pretensão (1872) e a peça teatral Uma cena contemporânea (1862).
A seguir de sua autoria o poema Supplicas maternas.


Supplicas maternas

A milionaria exclama anciosamente :
– Meu Deos! Fazei d'este menino airoso
O ser mais rico, explendido e formoso
Que haja creado vossa mão potente,

A miseravel diz timidamente :
– Oh meu senhor! O filho desditoso
De minha entranha dolorosa e ardente
Fazei humilde, pobre e generoso.
(Roma)

Em: Tiradentes : orgam republicano, anno 1,n.7(jun. 1881)

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Machado de Assis


Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839 e morreu na mesma cidade, em 29 de setembro de 1908, filho de Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis. Romancista, contista, poeta, teatrólogo e crítico literário, com uma obra extensa e admirável, Machado de Assis é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. Traduziu obras de Victor Hugo, como Os trabalhadores do mar, e o poema de Edgard Allan Poe, O corvo. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897, e seu primeiro presidente. Colaborou em diversos jornais e revistas. Em 1855, com apenas quinze anos, estreia na literatura com seu primeiro poema intitulado "Ela", publicado na revista Marmota Fluminense, cujo proprietário, Francisco de Paula Brito, acolhia novos talentos, fazendo de Machado de Assis seu colaborador efetivo. No periódico O Espelho (1859-1860) colaborava como poeta e crítico teatral. Nesta revista, assinava com o pseudônimo M-as, em sua coluna denominada Revista dos Theatros, cuja função de cronista era noticiar aos leitores o que acontecia nos palcos teatrais. Escreveu nesta revista o poema intitulado "A. D. Gabriella da Cunha", escrito em 22 de dezembro de 1859. Nessa época, com apenas 20 anos já demonstrava todo seu talento para as letras. Colaborou no jornal Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro, onde usava vários pseudônimos. Escreveu para a Semana Illustrada, onde além do seu próprio nome, assinava também como Dr. Semana. Como contista, publicou no Jornal das Famílias, "Confissões de uma viúva moça", em abril de 1865. Em 1864, publica seu primeiro livro de poesias, Crisálidas, e, em 1872, foi publicado seu primeiro romance, Ressurreição. De janeiro a março de 1878, publica na revista O Cruzeiro, o romance Iaiá Garcia, editado no mesmo ano. No ano seguinte, começou a escrever na revista A Estação, onde publica, entre outros trabalhos, o romance Quincas Borba. Foi colaborador desta revista até março de 1898. Publicou várias crônicas no jornal Gazeta de Notícias, entre 1881 e 1897. Escreveu sua obra prima, Dom Casmurro, em 1899. Atualmente são conhecidos de sua autoria 205 contos, sendo o primeiro, de 1858, "Três tesouros perdidos" e o último, de 1907, "O escrivão Coimbra".


Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
__ "Quem me dera que fosse aquella loura estrella,
Que arde no eterno azul, com uma eterna vela!"
Mas a estrella, fitando a lua, com ciúme:

__ "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega columna á gothica janella,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

"Miseria! Tivesse eu aquella enorme, aquella
Claridade mortal, que toda luz resume!"
Mas o sol, enclinando a rutila capella:

__"Pesa-me esta brilhante aureola de nume.
Enfara-me esta azul e desmedida umbella...
Porque não nasci eu um simples vagalume?"

Em: O Esfolado, n. 1, set. 1904.


A. D. Gabriella da Cunha

Pára! Colhe essas azas um instante;
Olha que senda decorrente vens!
Pára! É o marco final do caminhante,
E mais espaços a vencer não tens!

Lembra as visões e os sonhos do passado...
Vão longe, longe – quando, artista em flôr,
Nem tinhas o caminho calculado,
Que mais tarde havias de transpôr.

Contaste acaso em tua mente outr'ora
Tantas corôas futuras e tropheus?
Ou sonhaste uma vez erguer-te agora
Alto, tão alto pela mão de Deus?

Não podeste medir todo este espaço,
Nem podeste pensar que um dia, aqui
Viria o povo, em um festivo abraço.
Sagrar-te os louros triumphaes, a ti.

Foi sorpreza do genio – e do destino
Que a tua senda de futuro abriu,
E que uma folha de laurel divino
Em tua fronte pallida cingiu.

Talvez de artista no teu largo manto,
Como gotas de sangue em niveo chão,
Noite de espinhos orvalhou com pranto
E mareou de dôr muita ovação.

Faz uma flôr de cada espinho acerbo,
Tira de cada tréva um arrebol:
Para fazel-a – abre os labios, VERBO!
Para tiral-o – abre os teus raios, Sol!

Em: O Espelho, n. 17, dez. 1859.

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Maria Clara da Cunha Santos


Maria Clara da Cunha Santos nasceu em Pelotas, RS em 18 de novembro de 1866 e morreu no Rio de Janeiro em 23 de outubro de 1911.

Poetisa, prosadora, cronista e jornalista, foi uma das principais colaboradoras da revista A Mensageira. Colaborou também com a revista Rua do Ouvidor e com a revista O Lyrio. Casada com o engenheiro e abolicionista Dr. José Americo dos Santos. Com a colaboração de Presciliana Duarte, publicou o livro de versos – Pyrilampos e Rumorejos, prefaciado por Adelina Vieira, que mereceu da imprensa os mais justos aplausos e aceitação do público. Foi colaboradora de diversos jornais, dentre eles estão: Gazeta de Noticias, O Paiz, A Semana, Tribuna Liberal, Correio da Tarde, Jornal do Brasil, A Família e outros. Como colaboradora da A Mensageira, escreveu a coluna "Cartas do Rio," onde fala sobre o dia-a-dia da cidade do Rio de Janeiro. Dedicou-se também à música, foi violinista, e a pintura. Publicou em 1902, Painéis (contos), e em 1908, América e Europa (contos e textos humorísticos).


A Estátua

Aquella estatua esplendida e formosa,
Magistral, imponente e deslumbrante,
De uma heroína antiga e triumphante
Tem a fórma divina e graciosa!

Mas essa estatua bella e fascinante,
Que arrebata e se ostenta magestosa,
Foi talhada na phase venturosa
Em que o artista a sorrir se fez amante.

Por isso é que essa estatua enregelada
Que não tem alma e que não tem calor,
Sendo incapaz de amar ou ser amada,

Nos parece sentir com louco ardor,
Pois cuido vel-a e ouvil-a, apaixonada,
Arfante o seio, suspirar de amor.

Em: Rua do Ouvidor n.32, jun.1898.

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Mário de Alencar


Mário Cóchrane de Alencar nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de janeiro de 1872, e morreu na mesma cidade, em 8 de dezembro de 1925, filho do escritor José de Alencar e de Georgina Cóchrane de Alencar. Poeta, jornalista, contista e romancista, bacharelou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo. Em outubro de 1888, Mário de Alencar venceu o concurso promovido pelo jornal Novidades, como a melhor tradução de dois sonetos de Herédia (José Maria de Herédia, 1842-1905), poeta de origem cubana. Fez parte da comissão avaliadora Machado de Assis. Ainda estudante de direito redigiu com Mário Pederneiras e Pardal Mallet o jornal A Luta, dirigido por Osório Duque-Estrada. Em outubro de 1891, durante o lançamento da pedra fundamental da estátua de José de Alencar, consolida-se a amizade entre Mário e Machado de Assis. Em 1895, teve início a correspondência entre os dois, que foi encerrada em 28 de agosto de 1908, com o agravamento da doença do autor de Dom Casmurro. Autor de folhetins e colaborador em diversos jornais e revistas, Mário de Alencar usava pseudônimos como: Deina, John Alone, M. A. e Marial. Colaborou para alguns jornais, dentre eles: O Mundo Literário, Revista Brasileira, Gazeta de Notícias, Jornal do Commercio, Revista da ABL e Revista da Língua Portuguesa. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 21, a partir de outubro de 1905. Seu primeiro livro de poesias, Lágrimas, foi publicado em 1888, quando ainda estudante. Outras obras do escritor são Versos (1902), Ode cívica ao Brasil (1903), Alguns escritos (1910), O que tinha de ser (1912) e Contos e impressões (1920).


Sinhá

Cantam cigarras. Cicia
O azul do dia.
Dia ardente de verão.
Que prazer passar a sesta
Sem nenhum trabalho, nesta
Doce paz do coração!

Trabalho é fructo do frio:
Faz mal no estio,
Que só quer cantiga e amor.
Acaso trabalha o vento
E este rio somnolento?
Acaso trabalha a flor?

Vadio anda o vento agora;
Passa e namora
A flor que beijos lhe deu.
Vae o rio tão dengoso,
Murmurando suspiroso,
Cheio de terra e do Céo.

Trecho de poema em: O Baile, n. 1, maio 1906.

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Mario Linhares


Mario Rômulo Linhares nasceu em Fortaleza, em 19 de agosto de 1889 e morreu no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1965, filho de Vicente Alves Linhares e de Maria Amália Vieira Linhares. Poeta, crítico literário, genealogista e historiador literário, iniciou sua vida de escritor em 1906, na revista Fortaleza que fundou com Joaquim Pimenta, Raul Uchoa, Genuíno de Castro e Jaime de Alencar. Em 1910, mudou-se para Recife, fundando a revista Heliópolis (1910-1915) com Raul Monteiro, Silva Lobato, Costa Rego Júnior e outros. Escreveu também na revista Jangada (1909-1912) e Terra da luz. Escreveu para o jornais Diário da Bahia e Jornal de Notícias e na revista Renascença (1918). Usava vários pseudônimos: Gil Vaz, Max Línder, Gomes Pacheco, Flávio de Lisle, Ivo Neves, Ponciano Ribas, Jacques Amiot, Gervásio Botelho; e pseudônimos femininos: Laura Viterbo, Ivone Pimentel, Dolores Beviláqua, Carmem Floresta. Foi membro da Academia Carioca de Letras, Academia Cearense de Letras e da Federação das Academias de Letras do Brasil. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente do Instituto Cearense de Genealogia. Assumiu a presidência da Academia Cearense de Letras no período de 1955-1956, tendo como patrono Clóvis Beviláqua. Publicou Amor e suicídio em 1909, Florões em 1912, e Evangelho pagão em 1917, entre outras.


Meu Coração

Se o meu peito eu rasgasse, ó tímida açucena,
Numa explosão de amôr indomita e vehemente,
E meu imo banhasse a luz radiante e amena
Da aurora que hoje surge esplendida e fulgente,

Um mudo coração sujeito a dura pena,
Não verias, ó flôr, monotono e silente,
Como um velho relogio alta noute, serena,
Num tic-tac eterno, agudo, impertinente,

Não verias, ó flôr, um mar revolto e bravo
Em uma ancia suprema e lugubre de escravo
Aos céos o olhar erguendo em funebre clamor,

E sim um pintasilgo orfeonico e divino,
Febril marselhezando um cantico argentino
Em face o fiat-lux do nosso santo amor!

Em: Fortaleza, ano 1, n. 12, out. 1907.

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Medeiros e Albuquerque


José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, nasceu em Recife, PE, em 4 de setembro de 1867 e morreu no Rio de Janeiro, RJ, em 9 de junho de 1934. Filho de Joaquim José de Campos de Medeiros e Albuquerque, foi jornalista, contista, poeta, teatrólogo, político e professor.

Fundador da cadeira número 22 da Academia Brasileira de Letras, tendo como patrono José Bonifácio, o Moço. Aprendeu com sua mãe as primeiras letras e mais tarde foi matriculado no Colégio Pedro II. Em 1880, aos 13 anos, foi para Portugal em companhia de seu pai. Estudou de 1880 a 1884, em Lisboa na Escola Acadêmica. Voltando ao Brasil e ao Rio de Janeiro, estudou com Emílio Goeldi história natural, e foi aluno particular de Silvio Romero.

Aos 21 anos foi trabalhar com Alcindo Guanabara no jornal Novidades. Dirigiu o jornal O Fígaro. Colaborou, diariamente entre 1930 e 1934, com a Gazeta de São Paulo. Na Ilustração Brasileira, publicação surgida no Rio de Janeiro em 1909, escrevia Crônica de 15 Dias, com as iniciais M.A.

Republicano, foi nomeado pelo ministro Aristides Lobo, em 1892, secretário do Ministério do Interior. Neste mesmo ano, foi nomeado por Benjamin Constant, vice-diretor do Ginásio Nacional. Foi professor da Escola de Belas Artes, além de vogal e presidente do Conservatório Dramático entre 1890-1892.

Sua estreia na literatura aconteceu em 1889 com os livros Pecados, e Canções de decadência. Escreveu sob vários pseudônimos: Armando Quevedo, Atásius Noll, J. Dos Santos, Max, Rifiúfio Singapura. Além de contos, romances, peças de teatro, escreveu também ensaios, memórias, pensamentos e política. É autor da letra do Hino da República. Ilustramos sua biografia, com Beijos perdidos, poema de sua autoria encontrado nas páginas de Senhorita X!


Beijos Perdidos

Depois de ter beijado tanta bocca,
Tanta mulher ter tido nos meus braços:
Não se acalmou em mim a febre louca
De volupia, de beijos e de abraços.

Não sinto para o amor cansada e rouca
A minha vóz, nem meus desejos lassos;
Lamento apenas seja a vida pouca.
E os dias que me restam tão escassos.

Lamento, porque aquella que merece
Mais do que todos, só me veiu quando,
Se ainda há tempo para amar não sei...

e eu queria dar-lhe se pudesse
Os beijos que andei esperdiçando
Todos os beijos que as outras dei!...

Em: Senhorita X!... : revista mensal, social e illustrada, ano 1, n. 2, nov. 1932.

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Múcio Teixeira


Múcio Scévola Lopes Teixeira nasceu em Porto Alegre, em 13 de setembro de 1857 e morreu no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 1926, filho de Manuel Lopes Teixeira e de Maria José Sampaio Teixeira. Escritor, jornalista, teatrólogo, diplomata, tradutor e poeta, é autor de mais de setenta obras entre peças teatrais, ensaios, romances, dramas, poesias, traduções e biografias. Estudou no Colégio Gomes, em Porto Alegre, onde conviveu com Demétrio Ribeiro, Assis Brasil e Júlio de Castilhos. Publicou seu primeiro livro de poesias aos 15 anos, com o título de Vozes trêmulas. Fundou a Sociedade Pártenon Literário, em Porto Alegre. Organizou uma antologia de poesias traduzidas chamada Hugonianas, em homenagem a Victor Hugo, quando da morte deste autor. Escreveu sob vários pseudônimos, Barão de Ergonte, quando tornou-se astrólogo e quiromante profissional, e outros como Boêmio, Muciano Tebas, Manfredo, Felício Fortuna & Cia. É patrono da cadeira número 15, da Academia Rio-Grandense de Letras, e da cadeira número 35, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Ocupou, de 1882 a 1884, o Consulado Geral na Venezuela. É autor da primeira biografia sobre Castro Alves. De grande erudição, Múcio Teixeira falava e escrevia em francês, inglês, alemão, italiano, castelhano e esperanto. Conhecia latim, grego e hebraico. Na revista A Evolução Litteraria, na página intitulada "Homenagem aos mestres", é lembrado com um poema de sua autoria.


Onde o corpo não vai, projecta-se o olhar,
Onde pára o olhar, prossegue o pensamento;
Assim, n'esse constante, eterno caminhar,
Ascendemos do pó, momento por momento.

Além da atmosphera e além do firmamento,
Onde os astros, os soes, não cessam de girar,
Há de certo mais vida e muito mais alento
Do que nesta prisão mephitica, sem ar.

Pois bem, si não me é dado em vigoroso adejo,
Subir, subir... subir nos mundos que não vejo,
Mas que um não sei o que me diz inda hei de ver...

Quero despedaçar os élos da matéria,
Perder-me pelo azul da vastidão etherea
E ser o que só é quem já deixou de ser!

Em: A Evolução litteraria, ano 1, n. 1, abr. [1911].

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Odécio de Camargo


Odécio Bueno de Camargo, nasceu em São Paulo, em 1901, e morreu na mesma cidade, em 1965. Estudou no Ginásio do Carmo em São Paulo e diplomou-se em direito pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1925. Estudou também no Lycée Vandois, na Suíça. Romancista e contista, foi presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto e chefe da Casa Civil do Estado de São Paulo, em 1938, além de procurador judicial. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Suas obras são Insônia (romance e novela), de 1931, premiado pela Academia Brasileira de Letras. A sonata do ciúme (conto), de 1932 , e Castro Alves: estudante em São Paulo (biografia), premiado no concurso comemorativo do centenário do poeta, em 1947. É homenageado na revista Campinas com o poema de sua autoria, "A uma árvore".


A uma árvore

Muito mais nobre, na altivez serena,
Sem affectar ridicula attitude,
Comparando-se á tua magnitude
Quanto a alma do homem é pequena!

Ao cruel lenhador que te condemna
A' morte, dás o pão; e dás ao rude
Seringueiro impiedoso, a sombra amena,
Com silenciosa, natural virtude.

Roubam-te os fructos; num fingido abraço
O mata-páu te envolve e te suffoca.
Mas, sem lamento, elevas-te no espaço.

E, indifferente ao mal e á ingratidão,
A verde fronde, farfalhando, tóca
O céu, tão grande como o teu perdão.

Em: Campinas, ano 1, n. 1, out. 1936.

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Olavo Bilac


Olavo Braz Martins de Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1865 e morreu na mesma cidade em 28 de dezembro de 1918, filho de Braz Martins dos Guimarães Bilac e Delfina de Paula dos Guimarães Bilac. Poeta, cronista, conferencista, fundou vários jornais, a maioria de vida mais ou menos efêmera, A Cigarra, O Meio, A Rua. Substituiu Machado de Assis, na seção "Semana", da Gazeta de Notícias durante alguns anos. Considerado o maior poeta parnasiano brasileiro, sua obra foi influenciada pela poesia francesa e portuguesa dos séculos XVI e XVII e é marcada por certo erotismo e grande emoção. Seu primeiro soneto foi publicado na Gazeta de Notícias, em 1884, denominado "A sesta de Nero". Em 1886, colaborou com a revista A Semana, publicação de Valentim Guimarães, tendo como companheiros Machado de Assis, Alberto de Oliveira, Aloísio de Azevedo, Raimundo Correia e outros. Estudou medicina durante cinco anos quando desistiu, e foi tentar cursar direito, em São Paulo. De volta ao Rio, estreou com grande êxito na imprensa literária, ao publicar em 1888 o livro Poesias. Produziu contos, crônicas, além de obras didáticas. Olavo Bilac foi um dos poetas brasileiros mais populares e mais lidos do país, tendo sido eleito o "Príncipe dos Poetas Brasileiros", no concurso feito pela revista Fon-Fon em março de 1913. Participou ativamente da política brasileira, sendo um dos fundadores da Liga da Defesa Nacional, em 1916. Aliou-se a José do Patrocínio na luta pela abolição da escravatura. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. É autor do Hino à Bandeira Nacional.


Falei tanto de amor...

Falei tanto de amor... de galanteio,
vaidade e brinco, passatempo e graça,
do desejo fugaz, que brilha e passa
no relâmpago breve com que veio...

O verdadeiro amor, honra, ou desgraça,
goso ou supplício, no intimo fechei-o:
nunca o entreguei ao publico recreio,
nunca o expuz, indiscreto ao sol da praça.

Não proclamei os nomes que, baixinho,
rezava... E ainda hoje, timido, mergulho
em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;
e, quando soffro calo-me, e definho
na ventura infeliz do meu orgulho.

Em: Aristolino, ano 2, n. 2, jan. 1925.

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Olegário Mariano


Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu em Recife, PE, em 24 de março de 1889 e morreu no Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1958. Filho de José Mariano Carneiro da Cunha e de Olegaria Carneiro da Cunha, foi com a família para o Rio de Janeiro em 1897. Político, diplomata, poeta e embaixador em Portugal, aos 13 anos já fazia seus primeiros versos. Com apenas 15 anos, escreveu Visões de moço. Sua vida foi pautada por uma intensa atividade política. Seu pai, José Mariano, participou dos movimentos abolicionistas e republicanos, em Pernambuco. Olegário Mariano, em concurso promovido pela revista Fon-Fon, foi eleito "Príncipe dos Poetas Brasileiros", título anteriormente atribuído a Alberto de Oliveira e a Olavo Bilac, o primeiro a obtê-lo. Com o pseudônimo de João da Avenida, colaborou com as revistas Careta e Para Todos, escrevendo crônicas mundanas em versos humorísticos, que mais tarde foram reunidos em dois livros: Bataclan (1927) e Vida, caixa de brinquedos (1933). Foi eleito para a cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Mário de Alencar, em 23 de dezembro de 1926. Foi membro também da Academia das Ciências de Lisboa. Publicou Ângelus, seu primeiro livro de poesias, em 1911. Em 1913, escreveu Evangelho do sonho e do silêncio; em 1920, Últimas cigarras; em 1921, Sonetos, e, em 1932, Poesias escolhidas, entre outras. Ficou conhecido como o Poeta das Cigarras, por ser seu tema preferido.


Coração em ruína

A Luiz Edmundo

Paredes pelo chão, destroços de chimeras,
O Castello Real, eil-o sem vida agora;
Não canta mais o azul das doces primaveras,
Nem chora mais a dor das lagrimas da aurora.

Conheceste-o, mulher, entre o explendor de outr'ora
Quando tudo sorria entre illusões sinceras;
E hoje fitas assim, como quem ignora
O que foi do palácio o brilho de outras eras.

E o Templo que despedaçasse horrível
Sem temer que do céo fosse logo punido
Com o castigo que vence as fibras do impossível.

Pensa tu no Torreão das antigas bonanças
E falla d'este Paço, hoje morto e vencido,
E outr'ora o Vencedor das fortes esperanças...

Em: O Baile, n. 1, maio 1906.

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Abandono

De bastão de faiança á mão
delgada e esguia,
A marquezinha empoada
ólha o imenso salão.
Seu gésto é grave, a voz
é languida e macia...
Sempre a ventura é assim,
não dura mais que um dia
E ela não sabe
o que lhe vae no coração.

Lá fóra, no jardim
que o luar acaricía,
A silhueta doirada
e esvelta de um pavão
Põe, como no painel
de uma tapeçaria,
A nota ornamental
de uma fina poesia
E um repuxo apunhala
a alma da solidão.

E ela recorda...
A mão nervosa que tremia
Acariciando no minuête
a sua mão,
Depois, na iluminura azul
da noite fria,
Um vulto que chorava...
Um vulto que partia...
A alameda deserta
e deserto o salão.

Em: Bazar, ano 1, n.1 set.1931.

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Paula Brito


Francisco de Paula Brito nasceu no Rio de Janeiro, na rua do Piolho, n. 148, atual rua da Carioca, em 2 de dezembro de 1809 e morreu na mesma cidade em 15 de dezembro de 1861, filho de Jacinto Antunes Duarte e de Maria Joaquina da Conceição Brito. De família humilde, aprendeu a ler e escrever com uma única mestra, sua irmã mais velha. Escritor, tradutor e poeta, aos 15 começou a trabalhar como aprendiz de arte gráfica na Tipografia Nacional, antiga Imprensa Régia. Depois trabalhou na tipografia de Pierre Plancer na qual experimentou diversas funções e produziu como compositor gráfico, diretor de prensa, redator, tradutor e contista. Em 1830 comprou de seu primo, Silvino de Almeida Brito, uma loja de encadernação de livros, na praça da Constituição, onde é hoje a praça Tiradentes. Tornou-se então o primeiro editor do país e sua livraria ponto de encontro de intelectuais como: Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Casimiro de Abreu, Bruno Seabra, Laurindo Rabelo, Araújo Porto Alegre; e políticos como: José Maria da Silva Paranhos, Eusébio de Queiroz e outros. A livraria tornou-se o centro cultural da cidade, onde eram organizados encontros, palestras e consultas de literatos e políticos. Durante trinta anos, Paula Brito escreveu em diversos jornais sátiras políticas, poemas, peças teatrais e orações. Fundou em 1833, o jornal O Homem de Cor, um dos primeiros a discutir o preconceito racial no Brasil. A partir do terceiro número, este jornal passa a ser chamado de O Mulato, ou O Homem de Cor. Lançou em 1835,o semanário A Mulher de Simplício, ou, A Fluminense Exaltada, periódico em versos, onde também era discutida a questão racial. O conto intitulado "O Enjeitado" escrito por Paula Brito, foi publicado no Jornal do Commercio, no ano de 1842. Em 1849, aliou-se a Próspero Ribeiro Dinis e juntos editaram o jornal A Marmota na Corte. Em 1852, tornou-se o único proprietário deste jornal, e, em 1954, mudou o título para A Marmota Fluminense, que mais tarde passou a chamar-se A Marmota, até 1861, ano de sua morte. Em 1959 publicou Anônimas, poesias. Foi tradutor de fábulas do escritor francês Pierre Lachambeaudie.


A locomotiva e o cavallo

Rival da Locomotiva
Um Cavallo buscou ser,
Suppondo que mais do que ella
Elle podia correr.

N'um caminho em que tomavam
Ambos igual direcção,
Disse ao Vapor o Cavallo',
Brioso escavando o chão:

Por mais que queiras não pódes
A palma ter da victoria,
Nem fazer com que o teu nome
Como o meu brilhe na historia.

Do fogo que te alimentas
As linguas vejo sahir:
É nesse arsenal de guerra,
Que tens de te consumir.

- "Devéras, tu te apresentas
Como meu competidor?
Pretendes lutar? - lutemos,
Disse ao Cavallo o Vapor.

Máo grado a desproporção
Entre um e outro querer,
Junto da Locomotiva
Põe-se o Cavallo a correr.

Um enche os ares de pó,
Outro de negra fumaça!
Não há triumpho entre os dous,
Pois um ao outro não passa.

Exhausto, porém, de forças,
O Cavallo cahe e morre;
Que faz a Locomotiva?
Com mais fogo inda mais corre!

              __________

Quando a proterva ignorancia
Foge do seculo á luz,
No abysmo se precipita
A que seu erro a conduz.

Sempre que a velha rotina
Ao progresso der conselho,
Será bom que não se esqueça
De se mirar neste espelho.

Foge do seculo á luz,
No abysmo se precipita
A que seu erro a conduz.

Sempre que a velha rotina
Ao progresso der conselho,
Será bom que não se esqueça
De se mirar neste espelho.

Em: O Espelho, n. 3, set. 1859.

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Presciliana de Almeida


Presciliana Duarte de Almeida nasceu em Pouso Alegre (MG), em 6 de junho de 1867, e morreu em São Paulo, em 13 de junho de 1944, filha de Joaquim Roberto Duarte e de Rita Vilhena de Almeida Duarte. Começou a compor versos na adolescência e nessa época, com sua prima Maria Clara da Cunha Santos, começou a redigir um jornal manuscrito. Em 1890, lançou Rumorejos, livro de versos, prefaciado por Adelina Lopes Vieira. Casou-se com seu primo, Silvio de Almeida, este formado em direito. Tiveram três filhos, e apesar dos afazeres domésticos e problemas financeiros, Presciliana, não deixou de escrever e de colaborar com suas crônicas e versos para alguns periódicos como A Modista: jornal de modas, editado no Rio de Janeiro, em 1906. Em 1899, fundou a revista A Mensageira, periódico com tendência feminista, escrita principalmente por mulheres. Em 1906 publicou Sombras. Em 1908, lançou um livro de literatura destinado às crianças denominado Páginas infantis. Foi escolhida para ocupar a cadeira número 8 da Academia Paulista de Letras, fundada em 5 de outubro de 1909. Escreveu, em 1914, O livro das aves, e, em 1939, Vetiver, sua última obra.


Ideal

Entre a dolência acérrima e chorosa
De um sentimento infindo,
Vive a minh´alma – a Lyra suspirosa,
Que chora, muita vez, cantando e rindo!

Nem me bastára a luz de teu sorriso,
Nem todo o teu amor!
Eu quizera um doirado paraíso,
Onde eu fosse o teu único esplendor!

Quizera uma avenida perfumada
De flores odorantes,
Onde eu brilhasse mais que a madrugada
Aos teus olhares meigos, fascinantes!

Quizera ser o riso, o alento, a aurora,
A luz do teu viver,
Ser tudo o que tu`alma aspira e adora,
Anjo da noite e flor do alvorecer!

Em: A Mensageira, ano 1, n. 2, out. 1897.

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Raimundo Correia


Raimundo da Mota de Azevedo Correia nasceu a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado nas costas do Maranhão no dia 13 de maio de 1859 e morreu em Paris, em 13 de setembro de 1911. Filho do desembargador José da Mota de Azevedo Correia e de Maria Clara Vieira da Mota de Azevedo Correia, foi com sua família para o Rio de Janeiro, sendo matriculado no Internato do Colégio Nacional, hoje Pedro II, concluindo seus estudos em 1876. Estudou na Faculdade de Direito de São Paulo, onde conheceu Raul Pompéia, Affonso Celso, Valentim Magalhães, Eduardo Prado e Silva Jardim, que mais tarde iriam se destacar na política, no jornalismo e na literatura. Sua primeira publicação, de 1879, foi o livro de poesias Primeiros sonhos. Em 1883, publicou seu segundo livro de poesias intitulado Sinfonias, onde se encontra um dos poemas mais conhecidos da língua portuguesa intitulado "As pombas", o que lhe valeu o cognome de o "Poetas das pombas". Este livro foi prefaciado por Machado de Assis. Membro fundador da cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Bernardo Guimarães, iniciou sua carreia no romantismo, depois adotou o parnasianismo e, em alguns poemas, o simbolismo. Suas obras são: Primeiros sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e versões (1887), Aleluias (1891) e Poesias (1898). Colaborou com alguns periódicos, tais como, O Vassourense, do poeta e humanista Lucindo Filho, Gazetinha, de Artur Azevedo, Semana, de Valentim Magalhães, Almanaque Garnier e Revista da Academia Brasileira de Letras. No cenário político, foi secretário da presidência da Província do Rio de Janeiro, juiz de direito em São Gonçalo do Sapucaí, MG, e diretor da Secretaria de Finanças de Ouro Preto. Trabalhou como segundo secretário da Legação do Brasil, em Portugal, onde editou seu livro Poesias, em quatro edições sucessivas e aumentadas, com prefácio do escritor português João da Câmara. Formou com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac a famosa Tríade Parnasiana.


Noivado no sertão

É noite! O céo arreia-se de estrellas
A terra a illuminar;
Por entre as ramas da taquara verde
Peneira-se o luar!

Enche os ares o aroma, que transpiram
As flores da mangueira!
Dos sertanejos os semblantes brilham
Ao lume da fogueira!

Junto ao fogo phantasticas historias
Um velho está contando
Aquelles, que o escutam, as espigas
De milho debulhando!

A meza do banquete está repleta
No meio da folhagem,
E a toalha de rendas lá se agita
Aos ósculos da aragem!

Em: Direito e lettras, ano 1, n. 2/3, out. 1878.

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Rubens de Mendonça


Rubens de Mendonça nasceu em Cuiabá, MT, a 27 de julho de 1915 e morreu na mesma cidade a 3 de agosto de 1983. Filho do historiador Estevão Anastácio Monteiro de Mendonça, foi historiador, professor, jornalista e poeta. Em 1937 matriculou-se na Faculdade de Direito de Cuiabá. Fundou e presidiu o Grêmio Literário Álvares de Azevedo.

Pertenceu a várias associações culturais. Fundou e dirigiu os seguintes jornais: O Trabalhista, Brasil Oeste e O Social Democrata. Contribuiu como jornalista para os jornais Correio da Semana, A Batalha, O Social Democrata, O Estado de Mato Grosso, Correio da Imprensa, Jornal do Comércio, de Campo Grande,Atualidade, de Corumbá, e o Diário de Cuiabá, publicação em que escrevia artigos denominados Sermão dos Peixes.

Fundou com Gervásio Leite e João Batista Martins de Melo o periódico Pindorama, em 1939. Escreveu extensa obra com cerca de 50 livros, muitos falando sobre o regionalismo mato-grossense, entre os quais se destacam: História de Mato Grosso e ruas de Cuiabá, História do comércio de Mato Grosso, Sátiras na política de Mato Grosso, Nos bastidores da história de Mato Grosso.

Como poeta escreveu Cascalhos da ilusão, Garimpo do meu sonho, No escafandro da vida, Antologia Bororo, Dom Pôr do Sol. Deixou inéditos pelo menos 19 títulos. Foi, durante muitos anos até seu falecimento em 1983, Secretário Perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. É nome de uma das mais importantes vias de Cuiabá, a avenida Historiador Rubens de Mendonça. No periódico Cidade verde encontramos o poema "Tarde chuvosa", de sua autoria.


Tarde chuvosa

Para a cidade verde

a tarde é triste e branca;
é branca e triste porque chove
e chove muito.
e o vento passa bramindo,
lá fóra.
é forte, é muito forte
o vento... rodopiam
as folhas dos eucalyptos
e caem por terra.

chora a natura,
e minh'alma, tambem
chora,
agora,
por lembrar do nosso amôr passado...
tudo acabado!
e minh'alma chora de dôr,
ao lembrar o nosso amôr...
foi num dia
assim, de chuva assim,
que te beijei
primeira vez, meu amor...

chovia,
era uma tarde triste,
muito triste e fria...

Em: Cidade verde, ano 1, n. 2, set. 1935.

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Valentim Magalhães


Antônio Valentim da Costa Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, a 16 de janeiro de 1859 e morreu na mesma cidade, a 17 de maio de 1903, filho de Antônio Valentim da Costa Magalhães e de Custódia Maria Alves Meira. Jornalista, contista, romancista e poeta, aos 13 anos começou a escrever poesias. Estudou na Faculdade de Direito, em São Paulo. Colaborou na República, jornal do Club Republicano Acadêmico, onde escreveu seus primeiros folhetins críticos. Sua obra é extensa e composta por ensaios, poemas, contos, romances, crônicas e teatro, entre os quais destacam-se: Ideias de moço (ensaios, 1878), Quadros e contos (1882), Vinte contos e fantasias (1888), Inácia do Couto (comédia, 1889), Briac-à-brac (contos, 1896), Cantos e lutas (1897), Flor de sangue (romance, 1897), Rimário (1899). Colaborou com os principais jornais de maior circulação de São Paulo: Província de São Paulo, O Correio Paulistano, A Gazeta de Notícias e A Gazeta da Tarde, onde publicou contos, poesias e folhetins. De volta ao Rio de Janeiro dirigiu A Semana, periódico fundado em janeiro de 1885. Além de literatura, este periódico fazia propaganda da Abolição e da República. Valentim Magalhães foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 7, cujo patrono é Castro Alves. Foi o fundador da revista A Educadora.


Medalhões de actrizes

Chloé pubere apenas, fresca aurora
De mulher; linhas nobres de palmeira
Moça, em que a seiva exuberante aflora
E que agita as espatulas, faceira.
Nos olhos a alegria sobranceira
De voar, azas abertas, vida em fóra.
Na voz tem da menina a derradeira
Gamma e as primeiras notas da senhora.
Nervos crueis, de velho stradivarius,
Em que uma herança de paixões ressalta,
Torturando-os, febris, tumultuários.
Quando surgiu, radiosa, no proscenio,
Apagaram-se as luzes da ribalta,
E a sala encheu-se da manhã de um gênio.

Em: A Educadora, n. 1, ago. 1899.

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Victor Silva


Victor Silva nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 7 de agosto de 1865, e morreu em Porto Alegre, RS, em 13 de dezembro de 1922. Foi funcionário do Ministério das Relações Exteriores como auxiliar da Comissão de Limites Brasil-Bolívia. Em 1897 foi morar no Rio Grande do Sul, no município de Montenegro, onde foi promotor público. Trabalhou na Secretaria do Interior do Estado. Foi diretor da Biblioteca Pública do Estado, em Porto Alegre de 1906 a 1922. Em 1924, dois anos após sua morte foi publicado seu livro Vitórias, de poesias. Alguns poemas de sua autoria foram publicados na revista Renascença, de onde destacamos o soneto "Em bronze".


Em bronze

Tu, sim! verás intacta os seculos passando
Pois do egregio metal que o tempo vão não doma
Vasei na estrophe audaz teu vulto venerando
E esse austero perfil das patricias de Roma.

Ora de bronzea téz teu nobre vulto assoma
Rude, á feição de uma aguia, os olhos lampejando,
Encurvado o nariz, revolta a ruiva coma
Suspensa em cada orelha um argolão brilhando.

Resurgindo o ideal de um seculo de assombros,
Não de candida graça ou de arroubado enlevo,
Dei-te o entono real de uma deusa inimiga:

Na fronte o casco alado, a chlamyde nos hombros,
Surges da estrophe eril em rutilo relêvo
Como a effigie marcial de uma medalha antiga.

Em: Renascença, ano 4, n. 38, abr. 1907.

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Zalina Rolim


Nasceu em Botucatu, SP em 20 de julho de 1869 e morreu em São Paulo em 24 de junho de 1961. Educadora, professora, alfabetizadora e poetisa, escreveu em diversas revistas femininas como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Traduziu obras em inglês e italiano. Colaborou na Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia.

Foi uma das precursoras da poesia infantil do país. Publicou: O Coração em 1893, Livro das Crianças em 1897 e Livro da Saudade em 1903.



Ruélia formosa

(A flor que ensina a amar)

-- disseram-se sorrindo—
Conserve-a junto a si, bem junto ao seio
E assim como rebenta o claro veio
D`água, na sombra, o amor virá surgindo.

Da flor sanguinea o rubro calix cheio
De extranhos philtros, velludoso e lindo,
--Ama! Dizia em lettras de ouro, e, ouvindo
A musica do amor, lenta aspirei-o ...

Toda a minha alma crédula se abria,
Preza, captiva, extatica á magia
Que os corações num mesmo sonha embala,

E agora a rubra flor mysteriosa
Como uns longínquos sons de ária saudosa
-- Eternamente aos meus ouvidos fala.

Em: A Mensageira, ano 2, n. 29, jun.1899